GRANDES MESTRES

DA POESIA

CORA CORALINA

 

CORA CORALINA

Luiz Carlos Amorim

Foi-se o corpo cansado,
A poesia viva ficou.
A poesia e o coração,
A alma de Cora Coralina
Continuarão muito vivos,
Mas vivos do que nunca,
Nos versos que ela deixou.

Cora Coralina, a mulher-menina
Dos becos da velha Goiás,
Não morrerá jamais,
Pois os seus tantos versos,
perenes, são eternos...

 

LEIA mais sobre CORALINA, cliando sobre os títulos:

A DOCE CORA CORALINA

ENCONTRADOS INÉDITOS DE CORA CORALINA

UM DOCE PARA CORA CORALINA

CORA CORALINA: CHEIROS E CORES NA RESISTÊNCIA SOCIAL À EXCLUSÃO

AVENTUREIRA E LIBERTÁRIA

UMA SERESTEIRA DO VERSO E DA PROSA

REGISTROS DE UM SÉCULO

TEXTOS INÉDITOS

 

POETA E CONTADORA DE HISTÓRIAS


Faz mais VINTE anos que perdemos Cora Coralina, essa grande poetisa brasileira que nos deixou um legado tão rico: a sua poesia.Nascida em Goiás, em 1889, teve uma trajetória literária peculiar. Embora escrevesse desde muito jovem, tinha 76 anos quando seu primeiro livro foi publicado e quase 90 quando sua obra chegou às mãos de Carlos Drummond de Andrade - responsável por sua apresentação ao mundo literário nacional. Desde então, sua obra vem conquistando o público, e seus livros têm sucessivas edições.
Cora Coralina, com seu estilo pessoal e característico que a consagrou, foi poeta e uma grande contadora de histórias de coisas de sua terra. Sua obra é considerada por vários autores um registro histórico-social deste século. Ela faleceu em abril de 85.
Sua obra: "Estórias da Casa Velha da Ponte", "Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais", ""Os Meninos Verdes", "Meu Livro de Cordel", "O Tesouro da Velha Casa" e "Vintém de Cobre".


PEQUENA BIOGRAFIA DE UMA GRANDE POETA

Cora Coralina (Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas), nasceu na Cidade de Goiás em 20 de agosto de 1889. Filha de Jacinta Luíza do Couto Brandão Peixoto e do Desembargador Francisco de Paula Lins dos Guimarães.Casou-se com Cantídio Tolentino de Figueiredo Bretas. Teve quatro filhos: Paraguassu, Cantídio Filho, Jacinta e Vicência, 15 netos e 29 bisnetos.Iniciou sua carreira literária aos 14 anos, publicando seu primeiro conto "Tragédia na Roça", em 1910, no Anuário Histórico Geográfico e Descritivo do Estado de Goiás.Saiu de Goiás em 25 de novembro de 1911, indo morar no interior de São Paulo: Avaré, Jaboticabal, Andradina e depois na Capital paulista. Viveu fora de Goiás durante 45 anos.Voltou para Goiás em 1954, indo morar na Casa Velha da Ponte. Iniciou nova atividade, a de doceira, que desenvolveu por mais de vinte anos.Faleceu em Goiânia, em 10 de abril de 1985, tendo sido seu corpo trazido para a Cidade de Goiás, onde jaz no Cemitério São Miguel. 

 

 

A DOCE CORA CORALINA

Por Luiz Carlos Amorim

Em doze de abril de 85 o Brasil perdia a sua poetisa mais sensível, mais autêntica e mais verdadeira: Cora Coralina. Estamos em abril e é difícil não lembrar de Cora, difícil não falar dela, difícil não reler os seus poemas. Eu queria escrever uma crônica em homenagem a ela, a grande poetisa do Brasil, mas não gosto de falar de perdas e acabei não escrevendo. E eis que, abrindo o Coojornal, como toda semana, me deparo com o texto de Cissa de Oliveira, minha vizinha lá no portal da nossa amiga Irene Serra do Rio Total: "Um Doce para Cora Coralina". Como não lê-lo e não aplaudí-lo? Além de falar de Cora, ela fala dos doces da doceira de mão cheia que ela era - e eu acabo de voltar da serra gaúcha, onde mora minha sogra, que faz doces fantásticos de figo, de pêssego, de marmelo, de morango, no fogão à lenha, não aquele de barro e pedra, como o de Aninha, mas à lenha, também. E então chego a sentir o gosto do doce de laranja.
Então cá estou eu, para agradecer à Cissa por lembrar de Cora e para me juntar à homenagem tão merecida.
São vinte e um anos de ausência da Aninha da poesia forte e despretensiosa, poesia que transmite a sua mensagem de amor à terra e à natureza, ao ser humano e à vida. A verdade é que Cora continua viva, cada vez mais viva nos seus poemas e na sua prosa. E no sabor dos doces que a Cissa me trouxe à boca.
A poetisa maior da casa velha da ponte, em Goiás, que teria quase cento e vinte anos, hoje, publicou seu primeiro livro aos sessenta e sete anos: "Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais". Depois vieram "Meu Livro de Cordel", "Vintém de Cobre - Meias Confissões de Aninha", "Estórias da Casa Velha da Ponte", "O Tesouro da Casa Velha da Ponte", "Os Meninos Verdes", "A Moeda de Ouro que um Pato Comeu". Essa, a obra que transformou Aninha no ícone da poesia brasileira que ela é hoje.
Em 2001, foram encontrados cerca de quarenta poemas inéditos de Cora, durante o trabalho de reconstituição de seu acervo. Esse material foi transformado em livro e foi publicado pela Global, editora que publicou quase todos os títulos de Cora. O livro é "Vila Boa de Goyaz" e os poemas que o compõe exaltam a cidade de Goiás, onde a poeta nasceu. Ela fala da Goiás que conheceu no início do século passado, das ruas que mudaram de nome, mas não mudaram de jeito, da linguagem impressa em cada toque dos diversos sinos existentes na cidade e fala, também, da casa velha da ponte. Um canto de amor à cidade de Goiás.
Foi-se o corpo singelo da grande poeta e da grande mulher-menina (ou menina-mulher?), mas a poesia viva ficou. A poesia que é o coração, a alma de Aninha, a nossa Cora Coralina eterna, que continuará viva para sempre no versos e na prosa que ela deixou.
Dos inéditos encontrados de Cora, tomo a liberdade de transcrever aqui "Coração é terra que ninguém vê", pois não dá pra falar de Cora sem ler uma criação dela: "Quis ser um dia, jardineira / de um coração. / Sachei, mondei - nada colhi. / Nasceram espinhos /
e nos espinhos me feri. // Quis ser um dia, jardineira / de um coração. / Cavei, plantei. / Na terra ingrata / nada criei. // Semeador da Parábola... / Lancei a boa semente / a gestos largos... / Aves do céu levaram. / Espinhos do chão cobriram. / O resto se perdeu / na terra dura / da ingratidão // Coração é terra que ninguém vê / - diz o ditado. / Plantei, reguei, nada deu, não. // Terra de lagedo, de pedregulho, / - teu coração. // Bati na porta de um coração. / Bati. Bati. Nada escutei. / Casa vazia. Porta fechada, / foi que encontrei..."

 

 

ENCONTRADOS TEXTOS INÉDITOS DE CORA CORALINA

Deu nos jornais, em meados de 81: foram encontrados cerca de quarenta poemas inéditos de Cora Coralina. E eles vão ser lançados em livro até o final do ano. É uma pena não ter havido tempo para lançar o novo livro em agosto, mês do aniversário da poetisa, que nasceu em 20 de agosto do ano de 1889. Faz mais de quinze anos que perdemos Cora Coralina, essa grande mulher brasileira que nos deixou um legado tão rico: a sua poesia. Ela teve uma trajetória literária peculiar. Embora escrevesse desde muito jovem, tinha 67 anos quando seu primeiro livro foi publicado e quase 90 quando sua obra chegou às mãos de Carlos Drummond de Andrade - responsável por sua apresentação ao mundo literário nacional. Desde então, sua obra vem conquistando o público, e seus livros têm sucessivas edições.
Cora Coralina, com seu estilo pessoal e característico que a consagrou, foi poeta e uma grande contadora de histórias de coisas de sua terra. Sua obra é considerada por vários autores um registro histórico-social deste século.
Os escritos inéditos foram encontrados por familiares da mais famosa poeta goiana, durante o trabalho de reconstituição de seu acervo, iniciado há dois anos. Característica da obra de Cora, os poemas exaltam a cidade de Goiás, onde a poeta nasceu. Parte da história da cidade é contada nos poemas e contos da poeta. Através da palavra, ela faz um painel da cidade em que nasceu e morreu, biografando o povo do lugar e revendo o passado. Uma obra com forte influência modernista e engajamento social. A poeta Ana Lins dos Guimarães P. Bretas recorre ao artifício de criar Cora Coralina, a velha senhora que faz doces e versos, e Aninha, a menina que encarna as experiências de sua infância, unindo as duas pontas da vida. Cora antecipou seu tempo, rompendo com uma sociedade preconceituosa da época, quanto ao papel social da mulher.
O material encontrado pela família será transformado em livro e a sua edição já está sendo organizada, devendo sair pela Global, editora que publicou quase todos os títulos de Cora.
Além dos poemas, foram encontrados cadernos com contos, cartas e uma pasta com manuscritos que não puderam ser aproveitados. Todos os outros manuscritos estão sendo revistos e copiados para evitar que se percam. Há cartas que não foram enviadas, textos comentando artigos de jornais e outros de forte cunho social.
A Associação Casa de Cora Coralina, na cidade de Goiás, também está contribuindo para manter o acervo da poeta intacto. Todo o material existente será escaneado e microfilmado para a confecção de um CD Rom.
Autodidata, Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas iniciou a carreira literária aos quatorze anos, contrariando os costumes do começo do século XX. Em 1910, publicou seu primeiro conto, “Tragédia na Roça”, no Anuário Histórico, Geográfico e Descritivo do Estado de Goiás. Na época, já usava o pseudônimo de Cora Coralina.
Depois de se casar com o advogado Contídio T. de Figueiredo Bretas, com quem teve quatro filhos, mudou-se para São Paulo, onde viveu 45 anos.
Somente onze anos após retornar à cidade natal, já viúva, é que Cora voltou a se decicar à literatura. Quando o livro “Poema dos Becos de Goiás e Estórias Mais” foi publicado, em 65, ela tinha 67 anos.
Depois, vieram “Meu Livro de Cordel” (76), “Vintém de Cobre – Meias Confissões de Aninha” (83), “Estórias da Casa Velha da Ponte” (85) e “O Tesouro da Casa Velha da Ponte” (89). Postumamente, foram lançados os infantis “Os Meninos Verdes” (86) e “A Moeda de Ouro que um Pato Comeu” (97). Todos os títulos serão relançados pela Global Editora.

 

UM DOCE PARA CORA CORALINA

Cissa de Oliveira



Eu posso ouvir a batida dos talheres sobre o inox da pia. Alguém prepara um doce. Para imaginar um tacho sobre um fogão à lenha, daqueles à moda sertaneja eu não precisaria fechar os olhos mas fecho. Outra casa, outra época, outra pia, sem inox. Todo o presente se esvai, como se acompanhasse o eco que os talheres fazem.
O tempo se curva como uma flor no útero. Sou eu o bebê. Nascerei numa casinha rodeada de natureza, e por algum desses desígnios conviverei com a Aninha da Ponte da Lapa. É querer muito?
Pode ser que eu venha meio sinhá, escrava, ama de leite, dama da corte, não sei, mas uma coisa é certa, antes disso eu serei miúda, miudinha mesmo, sem a consciência exata de que mais tarde correríamos pelo sertão, entre os leitos ora transbordantes, ora secos, dos rios.
Talvez a Aninha, vez por outra me confundisse com uma formiga - de incansável na traquinagem, ou por gostar muito de doces, ou porque eu novamente nascesse com os cabelos da cor do " ponto" dos caramelos. De miudinha seria como uma marca entre os bordados que a luz do sol faz no chão quando filtrado pelas árvores de copas altas, ou muito escassas, que isso depende da época e da vontade dEle.
Por certo não faltariam os adultos, Aninha, a imporem hora pra criança dormir, o que comer e quando, o que vestir e o que falar. Estaria certo isso, Cora, digo, Aninha? Talvez me ajoelhassem no milho se descobrissem o meu plano secreto de fuga - pura curiosidade - pelo leito seco do rio, numa manhã qualquer. Estaria saudoso o rio, estaria: menos das águas e mais do colorido das rodilhas nas cabeças das mulheres, da meninada pulando, "tibum"! e dos peixes silenciosos nos seus requebros muito alinhados.
Por fim eu encontraria o mar: Copacabana, Santos, Guarujá, tanto faz. Importa que eu sentiria saudades. Talvez pelo que agora se prepara lá na cozinha, e eu sei pelo barulho dos talheres: é para esta criança que eu não fui, lá no passado. Está escrito. Cristalizado.
Só mais uma coisa, Cora: - Seria de laranja da terra, o doce, certo?
É querer muito?
Audácia maior seria dizer que o bebê dessa história eras tu, Cora, e o doce, ora vejam, feito por mim, mão cheia em abrir vidros de compotas.

 

Poemas inéditos:

ASSIM EU VEJO A VIDA

Cora Coralina


A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria.
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
Dos valores que vão desmoranando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições, lutas e perdas
Como lições de vida
E delas me sirvo.
Aprendi a viver.

 

MASCARADOS

Cora Coralina

Saiu o Semeador a semear
Semeou o dia todo
e a noite o apanhou ainda
com as mãos cheias de sementes.
Ele semeava tranquilo
Sem pensar na colheira
porque muito tinha colhido
do que os outros semearam.
Seja você esse semeador
Semeia com otimismo
Semeia com idealismo
as sementes vivas
da Paz e da Justiça.

 

 

EU CREIO 

 

Creio nos valores humanose sou a mulher da terra.
...
Creio na força do trabalho
como elos e trança do progresso.

Acredito numa energia imanente
que virá um dia ligar a família humana
numa corrente de fraternidade universal.

Creio na salvação dos abandonados
e na regeneração dos encarcerados,
pela exaltação e dignidade do trabalho.
...
Acredito nos jovens
à procura de caminhos novos
abrindo espaços largos na vida.
Creio na superação das incertezas
deste fim de século.

 

 

 

TODAS AS VIDAS


Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado
acocorada ao pé
do borralho,
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...

Vive dentro de mim
a lavadeira
do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d'água e sabão.
Rodilha de pano.
Troouxa de roua,
pedra de anil.
Sua coroa verde
de São Caetano.

Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada,
sem preconceitos,
de casca grossa,
de chinelinha
e filharada.

Vive dentro de mim
a mulher roceira.
-Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos.
Seus vinte netos.

Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada
tão murmurada...
Fingindo alegre
seu triste fado.

Todas as vidas
dentro d mim:
Na minha vida -
a vida mera
das obscuras.

 

Aninha e suas pedras

Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

 

O Cântico da Terra

Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranqüila ao teu esforço.
Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.

Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.

E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranqüilo dormirás.

Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.

 

Mãe


Renovadora e reveladora do mundo
A humanidade se renova no teu ventre.
Cria teus filhos,
não os entregues à creche.
Creche é fria, impessoal.
Nunca será um lar
para teu filho.
Ele, pequenino, precisa de ti.
Não o desligues da tua força maternal.

Que pretendes, mulher?
Independência, igualdade de condições...
Empregos fora do lar?
És superior àqueles
que procuras imitar.
Tens o dom divino
de ser mãe
Em ti está presente a humanidade.

Mulher, não te deixes castrar.
Serás um animal somente de prazer
e às vezes nem mais isso.
Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz calar.
Tumultuada, fingindo ser o que não és.
Roendo o teu osso negro da amargura.

 


O Passado...


O salão da frente recende a cravo.
Um grupo de gente moça
se reúne ali.
"Clube Literário Goiano".
Rosa Godinho.
Luzia de Oliveira.
Leodegária de Jesus,
a presidência.
Nós, gente menor,
sentadas, convencidas, formais.
Respondendo à chamada.
Ouvindo atentas a leitura da ata.
Pedindo a palavra.
Levantando idéias geniais.
Encerrada a sessão com seriedade,
passávamos à tertúlia.
O velho harmônio, uma flauta, um bandolim.
Músicas antigas. Recitativos.
Declamavam-se monólogos.
Dialogávamos em rimas e risos.
D.Virgínia. Benjamim.
Rodolfo. Ludugero.
Veros anfitriões.
Sangrias. Doces. Licor de rosa.
Distinção. Agrado.
O Passado...
Homens sem pressa,
talvez cansados,
descem com leva
madeirões pesados,
lavrados por escravos
em rudes simetrias,
do tempo das acutas.
Inclemência.
Caem pedaços na calçada.
Passantes cautelosos
desviam-se com prudência.
Que importa a eles o sobrado?
Gente que passa indiferente,
olha de longe,
na dobra das esquinas,
as traves que despencam.
-Que vale para eles o sobrado?
Quem vê nas velhas sacadas
de ferro forjado
as sombras debruçadas?
Quem é que está ouvindo
o clamor, o adeus, o chamado?...
Que importa a marca dos retratos na parede?
Que importam as salas destelhadas,
e o pudor das alcovas devassadas...
Que importam?
E vão fugindo do sobrado,
aos poucos,
os quadros do Passado.

 


Todas as Vidas


Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé
do borralho,
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...
Vive dentro de mim
a lavadeira
do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d'água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde
de São-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada,
sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
-Enxerto de terra,
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo ser alegre
seu triste fado.
Todas as vidas
dentro de mim:
Na minha vida -
a vida mera
das obscuras!

 


Eu Voltarei


Meu companheiro de vida será um homem corajoso de trabalho,
servidor do próximo,
honesto e simples, de pensamentos limpos.
Seremos padeiros e teremos padarias.
Muitos filhos à nossa volta.
Cada nascer de um filho
será marcado com o plantio de uma árvore simbólica.
A árvore de Paulo, a árvore de Manoel,
a árvore de Ruth, a árvorede Roseta.
Seremos alegres e estaremos sempre a cantar.
Nossas panificadoras terão feixes de trigo enfeitando suas portas,
teremos uma fazenda e um Horto Florestal.
Plantaremos o mogno, o jacarandá,
o pau-ferro, o pau-brasil, a aroeira, o cedro.
Plantarei árvores para as gerações futuras.
Meus filhos plantarão o trigo e o milho, e serão padeiros.
Terão moinhos e serrarias e panificadoras.
Deixarei no mundo uma vasta descendência de homens
e mulheres, ligados profundamente
ao trabalho e à terra que os ensinarei a amar.
E eu morrerei tranqüilamente dentro de um campo de trigo ou
milharal, ouvindo ao longe o cântico alegre dos ceifeiros.
Eu voltarei...
A pedra do meu túmulo
será enfeitada de espigas de trigo
e cereais quebrados
minha oferta póstuma às formigas
que têm suas casinhas subterra
e aos pássaros cantores
que têm seus ninhos nas altas e floridas
frondes.
Eu voltarei...

 


Considerações de Aninha


Melhor do que a criatura,
fez o criador a criação.
A criatura é limitada.
O tempo, o espaço,
normas e costumes.
Erros e acertos.
A criação é ilimitada.
Excede o tempo e o meio.
Projeta-se no Cosmos

 


Antiguidades


Quando eu era menina
bem pequena,
em nossa casa,
certos dias da semana
se fazia um bolo,
assado na panela
com um testo de borralho em cima.
Era um bolo econômico,
como tudo, antigamente.
Pesado, grosso, pastoso.
(Por sinal que muito ruim.)
Eu era menina em crescimento.
Gulosa,
abria os olhos para aquele bolo
que me parecia tão bom
e tão gostoso.
A gente mandona lá de casa
cortava aquele bolo
com importância.
Com atenção. Seriamente.
Eu presente.
Com vontade de comer o bolo todo.
Era só olhos e boca e desejo
daquele bolo inteiro.
Minha irmão mais velha
governava. Regrava.
Me dava uma fatia,
tão fina, tão delgada...
E fatias iguais às outras manas.
E que ninguém pedisse mais !
E o bolo inteiro,
quase intangível,
se guardava bem guardado,
com cuidado,
num armário, alto, fechado,
impossível.
Era aquilo, uma coisa de respeito.
Não pra ser comido
assim, sem mais nem menos.
Destinava-se às visitas da noite,
certas ou imprevistas.
Detestadas da meninada.
Criança, no meu tempo de criança,
não valia mesmo nada.
A gente grande da casa
usava e abusava
de pretensos direitos
de educação.
Por dá-cá-aquela-palha,
ralhos e beliscão.
Palmatória e chineladas
não faltavam.
Quando não,
sentada no canto de castigo
fazendo trancinhas,
amarrando abrolhos.
"Tomando propósito".
Expressão muito corrente e pedagógica.

Aquela gente antiga,
passadiça, era assim:
severa, ralhadeira.
Não poupava as crianças.
Mas, as visitas...
- Valha-me Deus !...
As visitas...
Como eram queridas,
recebidas, estimadas,
conceituadas, agradadas!
Era gente superenjoada.
Solene, empertigada.
De velhas conversar
que davam sono.
Antiguidades...
Até os nomes, que não se percam:
D. Aninha com Seu Quinquim.
D. Milécia, sempre às voltas
com receitas de bolo, assuntos
de licores e pudins.
D. Benedita com sua filha Lili.
D. Benedita - alta, magrinha.
Lili - baixota, gordinha.
Puxava de uma perna e fazia crochê.
E, diziam dela línguas viperinas:
"- Lili é a bengala de D. Benedita".
Mestre Quina, D. Luisalves,
Saninha de Bili, Sá Mônica.
Gente do Cônego Padre Pio.
D. Joaquina Amâncio...
Dessa então me lembro bem.
Era amiga do peito de minha bisavó.
Aparecia em nossa casa
quando o relógio dos frades
tinha já marcado 9 horas
e a corneta do quartel, tocado silêncio.
E só se ia quando o galo cantava.
O pessoal da casa,
como era de bom-tom,
se revezava fazendo sala.
Rendidos de sono, davam o fora.
No fim, só ficava mesmo, firme,
minha bisavó.
D. Joaquina era uma velha
grossa, rombuda, aparatosa.
Esquisita.
Demorona.
Cega de um olho.
Gostava de flores e de vestido novo.
Tinha seu dinheiro de contado.
Grossas contas de ouro
no pescoço.
Anéis pelos dedos.
Bichas nas orelhas.
Pitava na palha.
Cheirava rapé.
E era de Paracatu.
O sobrinho que a acompanhava,
enquanto a tia conversava
contando "causos" infindáveis,
dormia estirado
no banco da varanda.
Eu fazia força de ficar acordada
esperando a descida certa
do bolo
encerrado no armário alto.
E quando este aparecia,
vencida pelo sono já dormia.
E sonhava com o imenso armário
cheio de grandes bolos
ao meu alcance.
De manhã cedo
quando acordava,
estremunhada,
com a boca amarga,
- ai de mim -
via com tristeza,
sobre a mesa:
xícaras sujas de café,
pontas queimadas de cigarro.
O prato vazio, onde esteve o bolo,
e um cheiro enjoado de rapé.

 


Conclusões de Aninha


Estavam ali parados. Marido e mulher.
Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça
tímida, humilde, sofrida.
Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho,
e tudo que tinha dentro.
Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar
novo rancho e comprar suas pobrezinhas.
O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula,
entregou sem palavra.
A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou,
se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar
E não abriu a bolsa.
Qual dos dois ajudou mais?
Donde se infere que o homem ajuda sem participar
e a mulher participa sem ajudar.
Da mesma forma aquela sentença:
"A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar."
Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada,
o anzol, a chumbada, a isca, apontar um poço piscoso
e ensinar a paciência do pescador.
Você faria isso, Leitor?
Antes que tudo isso se fizesse
o desvalido não morreria de fome?
Conclusão:
Na prática, a teoria é outra.

 


Velho

Estás morto, estás velho, estás cansado!
Como um suco de lágrimas pungidas
Ei-las, as rugas, as indefinidas
Noites do ser vencido e fatigado.
Envolve-te o crepúsculo gelado
Que vai soturno amortalhando as vidas
Ante o repouso em músicas gemidas
No fundo coração dilacerado.
A cabeça pendida de fadiga,
Sentes a morte taciturna e amiga,
Que os teus nervosos círculos governa.
Estás velho estás morto! Ó dor, delírio,
Alma despedaçada de martírio
Ó desespero da desgraça eterna.

 


RESSALVA


Versos... não
Poesia... não
um modo diferente de contar velhas histórias

Cora Coralina (Poemas dos Becos de Goiás )



Biografia mais detalhada:


Cora Coralina (Ana Lins do Guimarães Peixoto Brêtas), 20/08/1889 - 10/04/1985, é a grande poetisa do Estado de Goiás. Em 1903 já escrevia poemas sobre seu cotidiano, tendo criado, juntamente com duas amigas, em 1908, o jornal de poemas femininos "A Rosa". Em 1910, seu primeiro conto, "Tragédia na Roça", é publicado no "Anuário Histórico e Geográfico do Estado de Goiás", já com o pseudônimo de Cora Coralina. Em 1911 conhece o advogado divorciado Cantídio Tolentino Brêtas, com quem foge. Vai para Jaboticabal (SP), onde nascem seus seis filhos: Paraguaçu, Enéias, Cantídio, Jacintha, Ísis e Vicência. Seu marido a proíbe de integrar-se à Semana de Arte Moderna, a convite de Monteiro Lobato, em 1922. Em 1928 muda-se para São Paulo (SP). Em 1934, torna-se vendedora de livros da editora José Olimpio que, em 1965, lança seu primeiro livro, "O Poema dos Becos de Goiás e Estórias Mais". Em 1976, é lançado "Meu Livro de Cordel", pela editora Cultura Goiana. Em 1980, Carlos Drummond de Andrade, como era de seu feitio, após ler alguns escritos da autora, manda-lhe uma carta elogiando seu trabalho, a qual, ao ser divulgada, desperta o interesse do público leitor e a faz ficar conhecida em todo o Brasil.
Sintam a admiração do poeta, manifestada em carta dirigida a Cora em 1983:
"Minha querida amiga Cora Coralina: Seu "Vintém de Cobre" é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia ( ...)."
Editado pela Universidade Federal de Goiás, em 1983, seu novo livro "Vintém de Cobre - Meias Confissões de Aninha", é muito bem recebido pela crítica e pelos amantes da poesia. Em 1984, torna-se a primeira mulher a receber o Prêmio Juca Pato, como intelectual do ano de 1983. Viveu 96 anos, teve seis filhos, quinze netos e 19 bisnetos, foi doceira e membro efetivo de diversas entidades culturais, tendo recebido o título de doutora "Honoris Causa" pela Universidade Federal de Goiás. No dia 10 de abril de 1985, falece em Goiânia. Seu corpo é velado na Igreja do Rosário, ao lado da Casa Velha da Ponte. "Estórias da Casa Velha da Ponte" é lançado pela Global Editora. Postumamente, foram lançados os livros infantis "Os Meninos Verdes", em 1986, e "A Moeda de Ouro que um Pato Comeu", em 1997, e "O Tesouro da Casa Velha da Ponte", em 1989.
(extraído do livro "Estórias da Casa Velha da Ponte", Global Editora)



Ana Lins de Guimarães Peixoto Bretas, nasceu no estado de Goiás (Goiás Velho) em 1889. Filha de Jacinta Luíza do Couto Brandão Peixoto e do Desembargador Francisco de Paula Lins dos Guimarães. Em 25 de novembro de 1911 deixa Goiás indo morar no interior de São Paulo. Volta para Goiás em 1954, depois de 45 anos.
Cora Coralina era chamada Aninha da Ponte da Lapa. Tendo apenas instrução primária e sendo doceira de profissão.
Publicou seu primeiro livro aos 75 anos de idade. Ficou famosa principalmente quando suas obras chegaram até as mãos de Carlos Drummond de Andrade, quando ela tinha quase 90 anos de idade.
Sua obra se caracteriza pela espontaneidade e pelo retrato que traça do povo do seu Estado, seus costumes e seus sentimentos.
Faleceu em 10 abril de 1985 em Goiânia.
Publicou:
Estórias da Casa Velha da Ponte, Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, Os Meninos Verdes, Meu Livro de Cordel, O Tesouro da Velha Casa, Becos de Goiás (1977); e Vintém de cobre: meias confissões de Aninha (1983). Além disso, publicou A Moeda de Ouro que o Pato Engoliu (Infantil) e Cora Coragem Cora Poesia foi sua biografia, escrita por sua filha Vicência Bretas Than.
Alguns dos prêmios que recebeu:
- Doutor Honoris Causa - Universidade Federal de Goiás (1983)
- Troféu Juca Pato - União Brasileira dos Escritores (1983)
- Troféu Cora Coralina - Coordenadoria de Moral e Civismo da Secretaria de Educação do Rio de Janeiro (1982)
- Grande Prêmio da Crítica - Associação Paulista de Críticos de Arte

VOLTAR