SUPLEMENTO LITERÁRIO A AILHA

Revista do Grupo Literário A ILHA

Edição 121de Junho/2012

Versão impressa do Suplemento Literário A ILHA 121

 

 

32 ANOS DE TRAJETÓRIA

E é junho, mês do aniversário do Grupo Literário A ILHA e da nossa revista. São 32 anos de trajetória, divulgando no Brasil e no exterior a literatura de escritores catarinenses e brasileiros.
Para comemorar, esta edição do Suplemento Literário A ILHA vem recheado de muita prosa e muita poesia e notícias de eventos que homenageiam data tão importante para a literatura catarinense: a Noite Poética Josefense, o lançamento, no Brasil, da antologia Varal do Brasil, que conta com o prefácio do coordenador do grupo mais perene do gênero, do aniversário da Academia Desterrense de Letras, que homenageou o poeta e prosador Júlio de Queiroz e o LITERANOITE, evento literário promovido pela Fundação de Cultura de São José, no Teatro Adolpho Melo, em 21 de junho, que convidou este editor.
E mais: estaremos lançando mais um volume da coleção Letra Viva, com crônicas de uma das escritoras do grupo e também o livro de crônicas "O Rio da Minha Cidade", de autoria deste editor, que recebeu Menção Honrosa dos Prêmios Literários Cidade de Manaus, em 2011.
Também inauguramos páginas de literatura infantil, na nossa revista, pois afinal o Suplemento Literário A ILHA é lido e estudado em várias escolas de primeiro grau. Há que se contemplar nossos leitores em formação.

 

 

CEMITÉRIOS DE FLORIANÓPOLIS

Júlio de Queiroz

Envolvida pela grandeza oceânica
A Ilha assimilou fugitivos de velhas terras;
Deu-lhes inesperados horizontes.
Generosa, poliu arestas raciais
Equalizou sentimentos, soldou uniões.
Quando, de cada um o respirar se despediu,
Plantou-os juntos, sementes de futuros.

Um punhadinho de reclamantes lamurientos
Chegado em proibições caducas, abdicou do fraterno.
Exigiu muros intransponíveis
Para isolar de todos seus esqueletos
Sob a guarda ciumenta de escudos mentirosos.

 

 

 

JACATIRÃO E JACARANDÁ

Pierre Aderne (Portugal)

jacatirão e jacarandá
vao juntos de mãos dadas pintando a rua
da cor do jamelão,
um vai colorindo o sol e o outro tinjindo a lua...
jacarandá e jacatirao
pintores de mãos e almas cheias
... fazem o menino cantar como passarinho
e a menina feito sereia
jacatirão e jacarandá
soprem o inverno

pra logo logo a primavera chegar

(Poema surgido de uma conversa no Facebook
sobre jacarandás e jacatirão,
entre Pierre, Luiz C. Amorim
e Mary Bastian.)

 

 

A FEIRA DO LIVRO DE FLORIANÓPOLIS

Por Luiz Carlos Amorim (Http://luizcarlosamorim.blogspot.com)

Aconteceu, em maio, a Feira Catarinense do Livro, sem nenhuma atração importante, como um escritor de renome nacional, palestras, seminários, etc. Infelizmente a feira reduziu-se, pura e simplesmente, à venda de livros: estandes de livrarias e/ou editoras oferecendo seus livros, lançamento de livros, sessões de autógrafos e exposições de trabalhos literários.
Chega a ser engraçado, pois em Joinville terminou, pouco antes, a maior feira do livro já realizada aqui no nosso Estado. Grandes nomes da Literatura Brasileira, das Artes, da Cultura, como Martinho da Vila, Affonso Romano de Sant´Anna, Ana Maria Machado - presidente da Academia Brasileira de Letras, Fernando Moraes e os atores Marcos Palmeira e Eliane Giardini, entre outros, estiveram abrilhantando o evento.
Em Jaraguá do Sul, acontece, também, neste mês de junho, uma das feiras do livro de Santa Catarina que mais vem crescendo a cada ano.
Aqui, no entanto, a feira do livro de Florianópolis traz apenas estandes para venda de livros. Como diz o próprio comunicado da Câmara Catarinense do Livro, "O principal objetivo do evento é o incentivo ao hábito leitura, levando a toda população livros novos, de todas as áreas do conhecimento, e momentos culturais, assim contribuindo com a cultura em Santa Catarina."
Quando achamos que não pode ficar pior, o comunicado anuncia, também, que "nessa 5ª Feira Catarinense do Livro, não haverá o Estande dos Escritores - os Lançamentos dos Livros e Sessões de Autógrafos acontecerão em mesas distribuídas no interior da feira em locais de circulação dos visitantes." Podemos fazer lançamento de livro, mas a venda de nossos livros, durante todo o decorrer da feira, como era feito nos anos anteriores, não será possível, pois não haverá, mais o Estande do Escritor Catarinense.
Como eu dizia, enquanto Joinville vê a sua feira crescer, Florianópolis vê a sua diminuir cada vez mais... O que falta? Apoio oficial, apoio da iniciativa privada, o quê? Joinville conta, segundo os organizadores, com o patrocínio do Governo Federal, Ministério da Cultura, Transpetro e Britânia, além do apoio do Proler, Lei de Incentivo à Cultura e Univille. E a Câmara Catarinense do Livro, por que não tem apoio do município, do Estado? Onde está a valorização da cultura catarinense, pela "cultura oficial"?

 

 

POEMAS SÃO SEMENTES

Maria de Fátima B. Michels
(Laguna)

Poemas são palavras
a proteger a germinação do sentir
São o primeiro impulso
na intimidade da semente

São asas a se enfunarem céu acima
São sementes de outros poemas
que se casaram e geraram novos poemas-sementes.

 

 

PRA FALAR DE AMOR

Erna Pidner

Falar de amor? De amor não se fala; o amor se vive! Seja amor fraternal, sentimental, universal! Com o amor a gente convive, revive, entra em declive. Reative... ora, o que? - o seu amor.
Vibrando de amor se dança, balança, vira criança, se tem esperança... de que? - de que, um dia, você o alcançe!
Sentir o amor: magia, alegria, harmonia, nostalgia, rebeldia ... como assim? De lutar por ele contra tudo e todos e tê-lo nas mãos um dia!
Perder um amor é tristeza, indiferença à beleza, malvadeza ... de quem? De quem nos tira a essência existente em sua natureza!
Desprezar um grande amor é burrice, rabugice, canalhice ... de quem o dá e tira, de quem o promete e não cumpre, de quem o perde apenas por crer em disse-me-disse!
Menosprezar um amor é insensatez, altivez, é querer de vez ... na solidão encontrar morta Inez!
Rejeitar o amor é ser incoerente, reticente, dependente ... ora, por que? - porque depende de conceitos a afastá-lo de si, - muitas vezes, sem razão aparente.
Falsificar o amor é crime, não redime. Esgrime: ... contra quem? - os falsificadores baratos a vendê-lo por um vintém, sem amarem ninguém!
Retribuir amor: entregar a outrem o que de mais precioso possuímos, cultivamos, amadurecemos ... pelos caminhos do existir retemos.
Chorar lágrimas de amor é purificar-se, "acriançar-se", amedrontar-se ...de quê? De nunca mais com ele poder envolver-se!
Ter um verdadeiro amor é ter o sol, a lua, as estrelas, os pássaros, as flores, os bosques, os rios, os mares, as montanhas, as cachoeiras, os animais, até os ferozes, a natureza, os duendes, gnomos, fadas, ETs, as galáxias, o universo, a girar dentro de si, na dança mais louca e inebriante que se possa imaginar!

 

 

FANTASIAS

Mary Bastian


Hoje me vesti de novo
Em fantasias
E me abracei de novo
Em teu abraço
Fechando os olhos pra ficar contigo

Hoje me vesti de novo
Em fantasias
Pra me deixar prender
Por elos magnéticos
que aproximam e juntam
nossas almas
na imensidão do espaço colorido

Hoje me vesti de novo
Em fantasias
E percorremos nossos corpos
Palmo a palmo
Com beijos doces
E com mãos macias
No cosmo azul
Num mergulho infinito
Os elos todos se encaixando fácil
Pra nos amarmos sem nenhum pudor

Hoje vou ficar vestida
Em fantasias
Pra não voltar do mundo encantado
De mil planetas
Cometas prateados
De corpos soltos
Magnetizados
Se aproximando
Pra ficarem juntos

 

 

CENTELHAS DE VIDA

Por Urda Alice Klueger

Era uma vez, lá no Paraíso Terrestre, quando Deus criou Adão e Eva e todos os animais, criou Ele, também, um casal de cachorrinhos. Viviam todos, lá, muito felizes, e se não fosse a preocupação de Eva e Adão de provarem dos frutos da Árvore do Bem e do Mal, a festa lá ainda não teria acabado, e ninguém passaria nenhum tipo de privação neste mundo.
Bem, o fato é que lá, junto com Adão e Eva, havia um casal de cachorrinhos, e que enquanto Eva era tentada pela Serpente, os cachorrinhos, muito naturalmente, tiveram seus primeiros filhotes, que tiveram outros filhotes, que tiveram outros filhotes, até que um dia, milhares de anos depois, nasceram os dois cachorrinhos que vivem na rua do lado da minha casa.
Eu comecei a vê-los no começo deste inverno que está tão frio: dois cachorrinhos amarelos, dos mais legítimos vira-latas, a saírem para a entrada da rua, bem na minha esquina, para ficarem ao sol que chega antes na esquina do que na casa deles. Pequenas centelhas de vida explodindo de inteligência e alegria, eles sabem exatamente a hora em que o sol chega a um pedaço quadrado de asfalto na saída da rua, e lá vêm, lépidos e alegres, a balançarem seus rabinhos na efusão gratuita de viver, para aproveitarem o calor fraco do sol e se aquecerem.
Como se divertem os dois bichinhos! Eles ainda são cachorrinhos muito novos, mal e mal deixaram de ser bebês, e a idade adulta deve vir só lá pelo verão. Estão naquela fase em que os cachorrinhos gostam de roer os chinelos das pessoas, e onde a alegria é infinita dentro dos corpinhos peludos e inquietos de tanta vida. Naquele quadrado de sol da esquina da minha rua, eles se aquecem com os focinhos erguidos, e brincam, alternadamente, brincam um com o outro tendo a certeza de que a coisa mais importante deste mundo é brincar. Eles conhecem todas as crianças da redondeza, e todas as crianças os conhecem - quando elas passam, cedinho, em direção da escola, eles interrompem suas brincadeiras para fazerem festa às crianças, e acompanham-nas um bom estirão pelas calçadas, até lembrarem-se que têm seu quadrado de sol no mundo, e voltarem à minha esquina.
Conhecem gente grande também: recentemente, quis saber mais sobre eles. Minha amiga Margarida contou-me que se chamam Toco e Bilú, e Margarida é uma mulher séria, tesoureira de um banco, o tipo de pessoa que a gente não pensa que sabe o nome de dois cachorrinhos de nada, duas centelhazinhas de vida que surgiram no começo do inverno num quadrado de sol. Depois que Margarida contou-me até o nome deles é que vi o quanto estão populares em toda a vizinhança.
Sabedora, agora, dos seus nomes, ontem de manhã fui lá falar com eles. O dia estava nublado, e o pedaço de sol não tinha aparecido na esquina. Os cachorrinhos, porém, sabiam perfeitamente onde ele iria surgir, se surgisse, estavam lá sentados,com cara de aborrecidos pela falta daquele amigo Sol que os tem aquecido desde que se lembram, na sua curta vida. Eles ainda não me conheciam - sempre os observo de longe, de dentro da garagem - e se mostraram indiferentes até que chamei:
- Toco!
Na hora descobri quem era Toco, pois ele veio pular em mim arrebentando de alegria, e foi só chamar "Bilú", para que Bilú também entrasse num paroxismo de prazer e de pulos, ambos inteiramente cônscios da sua identidade neste mundo. Nasceram faz pouco tempo: da vida só conhecem o quadrado de sol e as crianças que passam, mas sabem muito bem como cada um se chama, e como ficam gratuitamente felizes quando um adulto se digna dar-lhe o pequeno nome que é quase tudo o que possuem!
Eles pularam e me lamberam até que eu tive de ir-me. Pelo retrovisor do carro, fiquei vendo como, depois da alegria de terem sido reconhecidos por um adulto, esqueceram-se de que o quadrado de sol não tinha vindo, naquele dia, e passaram a brincar com a mesma alegria de quando se sentiam aquecidos!
Se Adão e Eva não tivessem acabado comendo do fruto da Árvore do Bem e do Mal, cachorrinhos como Toco e Bilú nunca sentiriam frio, e nunca precisariam ficar brincando num quadrado de sol na esquina de uma rua, e não haveria na minha vida a luz de suas pequenas centelhas de vida. Até que Adão e Eva não erraram de todo!

 

 

POEMA DA ANSIEDADE

Joel Rogerio Furtado

Anseio um bom lugar
para estar só.
Onde possa recolher-me inteiramente,
penetrar os dias bons de outrora
e beber a mensagem do silêncio.

Ambiciono um lugar quieto
onde possa reexaminar meus atos
e, na capela do silencio
encontrar o resultado final
do balanço de meus atos, minhas obras.

Pretendo um lugar calmo
para trazer-te para junto de mim.
E ficaremos sós,
e interpretaremos nossas almas,
e partiremos em busca
do azul da distância,
dos sonhos de ontem.

Faz tanto tempo que não paro
para pensar no que foi,
no que é,
no que poderá ser.
Não sejamos pontos intermitentes
Que teimam em não se encontrar

 

 

BIBLIOTECA PÚBLICA ESTADUAL: 158 ANOS


A Biblioteca Pública de Santa Catarina, uma das mais antigas do Brasil, completou 158 anos de fundação no dia 31 de maio. Com um acervo formado por mais de 115 mil volumes e publicações dos séculos 17, 18 , 19 e 20, a Biblioteca Pública foi criada em 1854 e inaugrada em janeiro de 1855.
A festa, que deveria ter acontecido no dia 31 de maio, foi transferida para junho. Mas a biblioteca não tem muito o que comemorar. Ou os seus usuários, melhor dizendo. A começar pelo empenho do Estado em mantê-la.
O escritor Amilcar Neves, em crônica no DC, em maio, denuncia o descaso para com a Biblioteca Pública do Estado: ele revela que o ex-governador Luiz Henrique da Silveira, hoje senador da República, questionava o fato de a bilbioteca de Joinville ser municipal e a de Florianópolis ter que ser estadual. Ele deve ter "esquecido" que Florianópolis tem a sua Biblioteca Municipal Prof. Barreiros Filho, localizada no Estreito. O fato é que, conforme o cronista, sustou a liberação de recursos para manutenção do acervo, durante o seu governo. Então, apesar do empenho de acabar com a biblioteca, ela continua com suas portas abertas.
Esperemos que o novo governador que aí está não faça o mesmo, embora tenha sido muito pródigo em dizer "não" à cultura.

 

 

PRAÇA XV

Maura Soares
(Florianópolis)

Passeio na praça que sempre disse ser só minha.
Nasci no centro, em casa sem jardim.
Fiz de ti, Praça XV, a minha alameda,
onde passeei em tardes primaveris.
Árvores centenárias, bucólicas flores,
bancos repletos de gente de todas as cores,
crianças brincando, correndo felizes
por entre os caminhos.
Te vi, Praça XV, ser transformada
em palco de disputas políticas.
Destruíram tua grama, pisaram em tuas flores;
sofreu meu coração.
Monumento aos heróis do Paraguai,
busto de nosso poeta maior, Cruz e Sousa,
assim tu reverencias a nossa cultura.
A Figueira, altaneira, cansada está de sua existência.
Seguram-na com estacas e ela resiste ao tempo.
Turistas passeiam ao redor com a vã ilusão
de retorno e de um futuro amor.

 

 

CACHORROS

Por Enéas Athanázio

Andando pela rua, nas minhas costumeiras caminhadas, comecei a lembrar dos cachorros que tive. Eles são uma de minhas manias, herdada pelas filhas, uma vez que todas têm cachorros. Os meus foram tantos que nem consigo lembrar de todos.
Entre os mais antigos figura o Rocki, um cão brasino que ganhei dos amigos Mena Barreto, ainda filhote, e que se tornou uma fera para os estranhos, embora brincalhão e carinhoso com os de casa. Eu o recebi em Campos Novos, onde passava as férias, e teria que levá-lo para Calmon, residência de minha mãe. Junto com uma de nossas tantas Bolinhas, que lá também se encontrava por razões que não recordo, ele foi colocado num caixote gradeado na parte superior e despachado até Joaçaba pelo ônibus do Tessaro. Lá foram embarcados no misto, o mesmo trem em que eu viajava. Como ele atrasou muito, fato comum, só passou em Calmon alta madrugada e os ferroviários sonolentos esqueceram o caixote com os cachorros e ele seguiu até o fim da linha, em Porto União. Os pobres só retornaram no dia seguinte, permanecendo na prisão por dois dias e uma noite. Quando abri o caixote eles pareciam abobados e não conseguiam caminhar. Tive que massagear suas pernas e fiquei assombrado com a sede que tinham.
Outro que deixou boas lembranças foi o Mundinho. Era um "fox paulistinha", todo preto e de longas pernas. Tinha um impulso extraordinário nas pernas, saltando do chão aos meus braços, já se posicionando para ser agarrado, sob pena de se estatelar de costas no chão. Saltava do solo para dentro do carro, através da janela, e o mesmo fazia em casa. Gostava de me seguir até o Fórum, correndo atrás do carro, com as orelhas abaixadas, e não se perdia no trânsito. Às vezes eu subia as escadas do Fórum, escutava um barulhinho atrás de mim, e deparava com ele me seguindo, ressabiado. Tinha que voltar até em casa para levá-lo de volta. Foi envenenado e teve morte quase instantânea, numa tarde em que o Pedro Abreu, desembargador e ex-presidente do Tribunal de Justiça, estava em nossa casa e testemunhou o desespero do animalzinho.

Sempre que encontro cachorros na rua eu costumo "falar" com eles. "Onde vai? Que anda fazendo? Onde mora?" Alguns se alegram com a atenção recebida, sacodem os rabos e dão mostras de simpatia; outros ignoram o cumprimento e prosseguem duros no rumo de seus insondáveis compromissos. Como os seres humanos. Alguns passam a me seguir, talvez esperançosos de encontrar um dono. Cachorros são leais e não alimentam preconceitos ou ideologias. Não se importam se o dono é rico ou pobre, feio ou bonito, de esquerda ou de direita, branco ou preto. Reluzindo de gordos ou exibindo as costelas magras, estão sempre solidários com seu dono e o seguem pelos caminhos. Essas lembranças me ocorreram ao terminar a leitura de "Marley & Eu", em que John Grogan relata a vida e o amor ao lado do pior cão do mundo (Prestígio Editorial - Rio - 2006). É um livro comovente que vem fazendo o maior sucesso.

 

 

À PROCURA

Célia Biscaia Veiga


Às vezes me sinto um peixe fora d'água,
Ou o elemento intruso no conjunto,
(Algo como o primeiro fio de cabelo branco...)
Alguém que está fora do seu lugar...
Mas então, timidamente,
Respiro fundo
E começo a observar
Os outros elementos do conjunto
E percebo, aos poucos, as semelhanças
Que se escondem atrás das diferenças...
E então consigo me situar
Pois mesmo sendo , de todos, diferente
(Até porque, ninguém é igual a ninguém)
Todos caminhamos para o mesmo lugar
E ainda que seja de formas diversas,
Temos todos os mesmo objetivo
Que é a busca da felicidade...

 

 

PRÊMIO PARA JÚLIO DE QUEIROZ

Luiz C. Amorim

O escritor e membro da Academia Catarinense de Letras (ACL) Júlio Dias de Queiroz recebeu na segunda-feira, 28 de maio, em sessão solene na Câmara de Vereadores de Florianópolis, o Prêmio Vilson Mendes de Literatura Desterrense, no 14º aniversário da Academia Desterrense de Letras. Júlio merece esse reconhecimento não só pela sua obra, que é magnífica, mas também pela pessoa humana, carismática e sensível que ele é. É difícil, senão impossível, conhecer Júlio de Queiroz e não admirá-lo. Urda Alice Klueger me falava dele e eu ficava pensando se ela não exagerava. Mas depois que o conheci, percebi que ela tinha toda a razão. Júlio é aquela criatura solidária que emana paz, serenidade, amizade. A gente o conhece hoje e parece que o conheceu a vida inteira.
Eu já o comparei a Quintana. Eu gosto dos dois, não sei ainda se Júlio gosta de Quintana, mas a mansidão, a serenidade, a boa acolhida que dá à gente me lembram Quintana. Nunca me encontrei com Quintana, mas pelos testemunhos que tive de pessoas que o conheceram, penso que ele seria um pouco assim como Júlio. E também pela obra. A obra de Júlio é consistente, é profunda, é prazerosa de ser lida, mas não é uma coisa que se lê e que se esquece. A literatura de Júlio tem conteúdo, é objetiva, tem estilo e faz a gente refletir, pode provocar até mudanças na gente. Tanto a prosa quanto a poesia de Júlio vão permanecer por muito e muito tempo, como a de Quintana, porque estão sempre atuais e porque mexem com a emoção, com o sentimento, com a sensibilidade de cada um de nós.

 

 

SONHOS

Marcos Antonio Meira


Nada além do que sinto
é o que quero
Nada além do que quero
é o que sinto

Não tenho a pretensão
de querer sentir o que não quero
e de querer o infinito...

Quero apenas querer
tudo aquilo que sonho
tudo aquilo que sinto

E não sonho
nada além do que sinto
e não quero
nada além do que sonho

Meus sonhos simples são
(como a vida é)
Simples como os sonhos
que tive quando criança

E que continuam presentes
nas reminiscências do tempo
De um tempo
que tudo permite
e nada espera

Sinto, quero
quero e sinto
(sem demora)
Quero os sonhos
os sonhos que sinto

 

 

NOITE DA POESIA

Aconteceu a terceira edição da Noite Poética Josefense, no Teatro Adolpho Melo, no Centro Histórico de São José. O sarau esteve muito bom, pois além da poesia, houve também dança e canto coral. A dança cigana arrebatou a plateia e o coral emocionou. Mas a poesia foi a atração principal.
A homenagem feita à poetisa Zoraida Guimarães foi um espetáculo à parte. Zoraida já participou do Grupo Literário A ILHA, poetisa que tem dedicado sua vida à poesia.
Encontrei lá o nosso grande poeta Júlio de Queiroz, que deu mais brilho à noite, encontrei o escritor José Isaac Pilati, confrade da Academia Sul Brasileira de Letras, a escritora Karine Alves Ribeiro, de Blumenau e muitos outros escritores da grande Florianópolis. Parabéns à organizadora, Hiamir, que acertou na medida o tempo de duração e o conteúdo do sarau.
O Grupo Literário A ILHA participou do evento, representado pelo seu coordenador e pelos escritores acima citados.

 

 

FOME DE MAR

Jacqueline Aisenman(Suiça)

Teu peixe que pulou na rede
É música pra minha fome
Pescador seu nome
Que tem a sede
do mar...
Traz um peixe pra mim
Traz uma rede pra mim
Quero ajudar
a pescar
Quero ajudar
a plantar
peixes
no mar
pra não faltar
peixes
na mesa do
jantar.

 

 

TROPEIROS

Por Apolônia Gastaldi

Havia lá pras bandas do Planalto, lá onde naquela época os pinheirais e a gralha faziam a paisagem, uma mulher muito bonita. Coisa rara mesmo. Um rosto perfeito, cabelos negros, crespos, correndo pelas costas. Cintura fina e dizem... diziam que tinha belas coxas. Bem, era a Rosa. Além do mais Rosa era inteligente mas não era safada não. Porém, era dona de uma "Casa de Moças", destas que não fecham nunca, e lá tinha para todos os gostos. Pagando bem...
O importante é que foi lá que o Pedro Gracher, não sei como veio a conhecer o Tonho, sim o Tonho da Rosa. E conversa vai, conversa vem, o Tonho, com uns quatorze anos resolveu adotar a vida de tropeiro. Quando a mãe o interpelou não querendo, o menino, agora já homem, observou bem observado: "será uma vida melhor que a sua, minha mãe.
Foi aí que o Pedro Gracher adotou o Tonho da Rosa, que passou a ser seu segundo. Era aquele que viajava perto do dono do gado. Passados uns poucos anos o Tonho da Rosa tornou-se o melhor dos ajudantes. Reparava bem qual cavalo ou mula que mancava, qual a cabeça de gado com algum bicho no couro ou que não pastava direito e quando paravam para dormir, lá saía ele, já de noite, atrás do animal que precisava de cuidados.
Com uma faquinha especial, a lambedeira, uma garrafa de cachaça e creolina ele fazia as curas.
Durante o dia vistoriava os cascos das montarias e arrumava as ferraduras ou tirava o estrepe. Até curava a boca do cavalo. Dizem que com uma torquesa arrancava o dente que perturbava o animal, estava cariado demais. Tonho acabou fazendo a comida do patrão e escovando o seu cavalo até parecer lustrado. E um dia ficou para trás nos caminhos da boiada. É que uma vaca prenha resolvera ter o bezerro assim no meio do caminho. Depois veio o Tonho com o bezerrinho embrulhado numa manta e aconchegado na frente da sua cela, a cavalo com ele. Logo mais, na parada o bezerrinho já estava em pé, mamando.
Sabia o Tonho da Rosa algumas rezas que aprendera com a sua avó. Rezas boas eram aquelas de "carne rasgada e nervo torto", de "arca caída" e aquela que rezava sobre o cachorro e as pulgas caíam todas mortas. Não acredita ?Não faz mal. Assim era, sem nem mais nem menos.

 

 

A CIDADE DA DANÇA

Aracely Braz
(S.Frco. do Sul)

Extasiada
a multidão da praça
mergulha, absorta,
no palco sob o céu:
o bailarino se exibe
com altivez e pompa,
a música lhe guia os passos,
o espectador vibra
e se alegra, embevecido.
A brisa refresca,
o sol brilha e aquece,
o poeta dança e encanta.
É o espetáculo fascinante
e plástico da dança
que se renova
na Cidade do Festival.

 

 

A SENHORA FELICIDADE

Por Karine Alves Ribeiro

A felicidade é uma senhora idosa e alegre que nos suscita sorrisos com seu entusiasmo fremente, de quem já viveu muito, e não sucumbiu às dores da vida. Pensamos, às vezes, que a felicidade é aquele moço alto, com porte de atleta grego, ares de personagem de Shakespeare e olhar de tigre asiático, que se deita diante da moça pura e fulgorosa, às duas da manhã. Às vezes, a felicidade se apresenta para nós como aquele delicioso bolo de chocolate e cerejas, de um vermelho vivaz, que queremos devorar, saboreando cada pedacinho de seu sabor ágape. Muitas vezes não temos tempo de mastigá-la, de sentir todas as suas nuances em cada papila gustativa de nossa língua, antes de engoli-la. Queremos quebrar todas as ampulhetas, e despejar toda a areia em nosso peito aberto, pulsante e vermelho. Mas não podemos, e a felicidade fenece, como um insofreável amante que junta suas roupas e vai embora depois da explosão amorosa e antes do abraço que o impediria de ir... A vida é assim, de felicidade que não dura! Herança da terra escura onde há mais mal do que bem. E a taça que é velha derrama sem deixar tomar. O rio que desbravaria cidades novas, muda de curso, antes de podermos encher um balde de água sequer. O infeliz é aquele que não é feliz? Mas quem é feliz? O João de barro que constrói sua casa engenhosa e sábia, porém, instintivamente? A chuva que a tudo encharca, mas sempre sucumbe às agruras do sol? A mãe que tem filhos saudáveis e perfeitos, enquanto outras se dilaceram pelos filhos com má-formação genética e/ou portadores de doenças como o câncer? Infeliz é aquele que nunca sentiu o abraço reconfortante da alegria!? Existe definição mais cruel do que esta? E aquela senhora sorridente continua feliz... Qual o seu segredo? Se o céu é este "teto" azul e infinito, a felicidade é a própria eternidade e quando ela beijar o ponteiro, que vive correndo dela, talvez entendamos por quê.

 

 

PÃO POR DEUS

Norma Bruno

Lá vai meu Pão-por-Deus
Recortado com tesoura
Dobra e corta, feito renda
Escreve um verso
Pede u'a prenda.

Lá vai meu coração
Colorido e recortado
Perguntar pra aquele moço
Se quer ser meu namorado.

Lá vai meu Pão-por-Deus
Nas asas de um passarinho
Vai pedir pro meu benzinho
Um cartão e uma prenda.

Caso ele, pobre, sem renda
Nada tenha a me ofertar
Aceito um abraço, um beijinho
E um convite pra dançar.

Lá vai meu coração
Vai dizer pro meu amor
Que sem ele não tem graça
Nem a rosa, nem o Sol,

 

 

DISTINTIVO

Kurt F. Svatek
(Austria)

Não existem almas pretas
Nem brancas;
Não existem almas vermelhas,
Nem morenas ou amarelas pálidas.

Existem, simplesmente,
Apenas almas de seres humanos,
Cheias de sentimentos.
E para sentir não é preciso ter cor.

 

 

LITERANOITE DE JUNHO

A sétima edição do LITERANOITE, projeto cultural da Fundação de Cultura de São José, acontece no dia 21 de junho, as 19h30min e recebe o escritor Luiz Carlos Amorim, coordenador do Grupo Literário A ILHA e membro da Academia Sul Brasileira de Letras.
A iniciativa busca outras possibilidades, além da Biblioteca Pública, para incentivar a leitura, sobretudo de literatura. O Literanoite representa um estímulo ao exercício dialógico entre literatura, leitura, cultura, escritores, publicações, editoras, alunos e público participante.
Já participaram do projeto escritores como Urda Alice Klueger, também do Grupo Literário A ILHA, Salim Miguel e outros autores catarinenses.

 

 

POEMA DO LIVRO

José Isaac Pilati

Meu nome em ti são olhos, que me fitam,
de um transplante doloroso que não sara:
meu livro, minha vida. Minha cara.
Da plumagem da capa e da estante abissal me contemplas,
ó harpia incompleta de me seres, sem mim e meus quereres,
macho mãe tetraplégico de perder-te:
meu livro, minha morte,
dupla mentira de me voares.
Quando suspendo teu corpo de papel,
Teu peso é da outra mão, amortecida:
Peso goro, dos meus dedos num relógio
Apontando pra outro tempo e outra vida.
Do teu tempo e minha morte me contemplas,
Ó esquizofrenia completa de me seres, me lerem, me gorares:
Persa imortal em ti, de me matares,
na angústia, enfim, de me Termopilares.

 

 

TOQUE DE MELANCOLIA

Harry Wiese
(Ibirama)

O murmúrio incessante das guitarras,
som de melancolia semibucólica,
envolto em plumas invisíveis,
nas tardes de verão,
na sala de vasta deflagração de delitos sentimentais,
me amarra o espírito
a quase cruel sina da existência.
E me animo a cantarolar canções de amor
e da janela, vejo o balé da construção de arranha-céus.
É surpreendente o equilíbrio natural do mundo.
Meu rádio toca "Feelings" de "Morris Albert"
e eu cubro meu rosto com o vazio de quem está só.
A vida é mesmo um pedaço de absurdo absoluto.

 

 

LANÇADA ANTOLOGIA VARAL DO BRASIL II

A segunda antologia Varal do Brasil foi lançada, em fins de maio e início de junho, em Salvador e Minas Gerais. Textos reunidos, de autores de vários pontos do Brasil e também de Portugal, além de brasileiros radicados em outros países, dão a oportunidade de vislumbrar a paisagem de um novo panorama literário formado por várias mentes e corações unidos em muitas páginas e com um só propósito: fazer boa literatura.
A editora da antologia, Jacqueline Aisenman, esteve no Brasil para o lançamento da antologia e também de seu novo livro, “Briga de Foice”. Ela também estará em Santa Catarina, neste junho.

 

PRIMEIRO DE MAIO, 2012

Teresinka Pereira
(USA)



Primeiro de maio
é o dia do trabalhador
imigrante,
do ser humano
que carrega consigo
uma quota de miséria
porque o chamado "Sonho Americano"
foi para si irrealizável
como uma promessa não cumprida.

Trabalhador sem trabalho:
o rumo de seus passos
é o muro injusto
que leva a rubrica
daquele que atravessa
fronteiras proibidas
para nada mais que
uma troca de patrões.

 

 

LITERATURA INTANTIL

 

O SONHO DE ANDRÉ

Por Else Sant´Ana Brum

Era uma vez um menino que sonhava em ter uma casa para morar. O menino vivia na rua. O nome dele era André. Uma noite, ele sonhou com uma fada que lhe ofereceu um lápis dizendo:
- Escrevendo ou desenhando com este lápis, seus desejos se realizarão, mas só desenhe e escreva coisas boas!
Ao acordar pela manhã, André percebeu que estava com um lápis na mão. Imediatamente escreveu no jornal onde dormira: eu quero ter uma casa pra morar. Na mesma hora, encontrou-se dentro de uma casa. Que alegria!
Mas a história não termina aqui, com todos felizes para sempre, porque o menino tinha outros sonhos. Desejou um jardim, um pomar e um lago com peixinhos. Ele desenhou e tudo apareceu.
Um dia, o menino desenhou um cachorro com sua casinha bonita e deu-lhe o nome de Jack. Nele encontrou um grande amigo. Desenhou também um gato, que recebeu o nome de Nick. Era lindo
André desenhou um poste em frente para que um joão-de-barro construísse sua casa. Havia de tudo no jardim e no pomar. Havia garças, saracuras e, à noite, os sapos formavam uma orquestra de sons variados. A lua até vinha se espelhar ali!
Um dia, André pensou: "Vivo sozinho aqui. Preciso me proteger de ladrões". Pegou o lápis e desenhou um revólver. Mas o revólver não saiu do papel. Ele então se lembrou da fada que lhe pediu para só desenhar coisas boas.
Na mesma hora, sentiu alguém ao seu lado. Era afada do sonho que lhe falou carinhosamente:
- Uma arma não representa segurança. Ela representa violência. Você está se sentindo sozinho? Então reparta com outras pessoas as dádivas do seu lápis mágico.
Algum tempo depois, quem passasse por aquele lugar veria a casa cercada de muitas outras casas, cheias de meninos e meninas, pais, mães, avós, tios, convivendo numa grande comunidade onde o amor era o grande mandamento.
André, balançando-se numa rede e olhando tudo aquilo, pensou: "Meus sonhos se tornaram realidade".

 

 

UM MONSTRO PÓS-MODERNO

Por Rosângela Borges

Sonho de monstro moderno
que tem cara de mal:
Ler segredos escritos em cadernos
e aparecer no jornal.
Comprar canetas coloridas,
gibis, sapatos, revistas.
E escrever a história de sua vida.

Assustar escritores de livros de horror,
andar de helicóptero e de disco voador.
Comer pão francês na França,
na China ou na esquina,
dirigir um carro e tocar a buzina.
Dormir de noite, trabalhar de dia,
ouvir músicas e ler poesia.

Ser famoso como o monstro do Lago Ness
ou aquele monstro que faz filme no Japão.
Ser o monstro da casa assombrada
ou da rua do sabão!
Correr pelas escadas, subir no último andar
(Só pra ver se a Cecília Meireles ainda mora lá!).
Entregar cartas de amor
para a Joana, a Maria e a Ana.
Ser um monstro romântico:
Namorar à luz da lua,
de frente para o Atlântico.

Tomar banho de chuva,
jogar futebol no campinho,
na lama, na grama,
no quintal do vizinho!
Ficar doente, de cama.
Ter gripe, catapora, bronquite.
Tomar chá de canela com banana.
E pensar que aquela melequinha-monstro
que sai do nariz a cada espirro,
vai aparecer na Tv.
Vai sair do nariz famoso
de um homem bem charmoso.
E vai passar direto da mão,
para a boca bonita
do técnico alemão!

O monstro moderno,
com cara de mal,
Tem muita coisa pra sonhar,
Mas essa vida é engraçada:
Tantos sonhos nem cabem neste lugar!

 


EXPEDIENTE

Suplemento Literário A ILHA - Edição Nº 121 - Junho/2012 - Ano 32
Edições A ILHA - Grupo Literário A ILHA
Contatos: lc.amorim@ig.com.br

 


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