SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA

Revista do Grupo Literário A ILHA

 

 

Edição N. 127 - Dezembro/2013 - Ano XXX

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E cá estamos nós com mais uma edição da revista do Grupo Literário A ILHA, em sua nova fase, com nova cara, graças à colaboração do diagramador Vlad Camargo e da poetisa Clarice Villac.
Esta é mais uma edição especial, pois além de muita poesia e muita prosa, além de informação literária e cultural, temos muitos textos em homenagem ao Natal. Muitos autores novos, outros que voltaram às páginas da revista.
Temos registro da participação do grupo no primeiro FLICAM - Festival Literário de Campos Novos , a homenagem ao poetinha Vinicius de Moraes, pelo passagem do seu centenário e também a homenagem ao escritor Lauro Junkes, em resenha sobre o seu último livro, lançado após a morte dele.
Registramos, ainda, a realização do Encontro Catarinense de Escritores em Joinville, promovido pela Confraria do Escritor, no mês de novembro, reunindo um grande número de autores de todo o Estado de Santa Catarina.
Desejamos a todos os nossos leitores um Feliz Natal e um 2014 cheio de realizações e muita inspiração aos escritores.

O editor

 

 

O RENASCER DO NATAL


Luiz Carlos Amorim

Um menino vai nascer,
neste Natal.
Trará consigo a paz,
a pureza verdadeira
e o amor, quase esquecido.
Trará ternura nas mãos,
compreensão e carinho
e esperança no olhar.
Nós sabemos o seu nome.
E nós sabemos, também,
da flor do jacatirão,
que aparece todo ano,
lhe anunciando a chegada.
E quase ninguém a vê...
Um menino vai nascer.
E a flor do jacatirão,
arauto humilde e singelo,
lhe festeja o nascimento,
preparando as boas-vindas.
Saberemos nós, os homens,
imitar a natureza?

 

 

FEIRA DO LIVRO DE SÃO JOSÉ

O escritor LUIZ CARLOS AMORIM estará lançando o seu novo livro, HISTÓRIAS DE NATAL - contos, na abertura da Feira do Livro de São José, que acontecerá no dia 3 de dezembro, no Shopping Ideal. A sessão de autógrafo será às 19h30min, logo após a cerimônia da abertura, que está prevista para as 17 horas. O livro de Amorim tem 110 páginas e vinte quatro histórias de Natal e conta com prefácio de Celestino Sachet. Na oportunidade, também estarão sendo apresentados os mais recentes livros do autor, "Nação Poesia" - antologia poética e "O Rio da Minha Cidade" - crônicas, Menção Honrosa nos Prêmios Literários Cidade de Manaus.
O autor estará na Feira do Livro de São José também no dia 12 de dezembro, dando uma palestra sobre a IMPORTÂNCIA DO LIVRO E DA LEITURA e, logo após, estará autografando seu novo livro de contos de Natal.

 

 

 

VINICIUS DE MORAES - 100 ANOS

Há exatos 100 anos nascia no bairro da Gávea, zona sul no Rio de Janeiro, Marcus Vinicius de Melo Moraes ou apenas Vinicius de Moraes. O "poetinha", como era conhecido, viveu toda a sua infância no Rio, quando escreveu seus primeiros versos.
Com apenas 16 anos Vinicius entrou para a Faculdade de Direito do Catete, na qual se formou em 1933, mesmo ano da publicação de seu primeiro livro, "O caminho para a distância".
Chegou a estudar literatura inglesa na Universidade de Oxford, na Inglaterra, porém, não se formou em razão da Segunda Guerra Mundial. Ao retornar ao Brasil, fez amizade com os escritores Mário de Andrade, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade.O artista trabalhou como jornalista, cronista e crítico de cinema, antes de ingressar na diplomacia, em 1943, quando foi nomeado vice-cônsul em Los Angeles.
O "Poetinha" foi um dos fundadores do movimento revolucionário na música brasileira da década de 50, a Bossa Nova, juntamente com Tom Jobim e João Gilberto. A partir dos anos 60, o estilo musical ganhava o reconhecimento internacional.
É autor de algumas das frases e dos poemas mais conhecidos na literatura brasileira. Entre suas músicas marcantes estão "Garota de Ipanema" (a canção brasileira mais tocada no mundo, parceria dele com Tom Jobim), "A Felicidade", "Manhã de Carnaval", "Chega de Saudade" e "Eu sei que vou te amar".
Sua obra musical soma mais de 300 títulos que retratam o cotidiano, o amor e as mulheres. Um poeta de livro que de repente se torna letrista e traz para as letras da música brasileira uma grande densidade poética. É também autor de poemas como "Rosa de Hiroshima" e "O Operário em Construção", que criticam problemas sociais e ganharam notoriedade como formas de protesto.
Boêmio assumido, Vinicius viveu intensamente seus 66 anos. Casou-se nove vezes e teve cinco filhos. Morreu de edema pulmonar aos 67 anos, em 9 de julho de 1980, em sua casa na Gávea.

Poética


Vinicius de Moraes

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
- Meu tempo é quando.

 

 

O NATAL DO MENINO


Marcos Antonio Meira (São José-SC)

Eu asseguro que,
a não ser que vocês se convertam e se tornem como crianças,
jamais entrarão no reino dos céus - Mateus 18,3.


Véspera de Natal. O menino toma banho. Veste o pijaminha de pano barato. Senta-se no velho no sofá. O vento entra pelas frestas da casa. O tic-tac do relógio deixa o menino ansioso - borboletas na barriga. Falta muito pra meia-noite? O menino não sabe das horas. Sonha o presente - a bola de futebol. Levanta-se do sofá. Abre a janela. Olha. Céu sem estrelas. O calor do verão. O silêncio da noite. Papai Noel voa? Pensa que sim. E vasculha o céu. Procura, e procura, e procura. Os olhinhos esperançosos, de um lado pro outro. Onde mora o Papai Noel? O menino não sabe do Sul, nem do Norte. Sabe apenas esperar. E esperar cansa. Esfrega os olhinhos com as mãos. Difícil ficar acordado. A cabeça balança. O menino se esforça. Em vão. É vencido pelo sono. E sonha... Segue num trenó grande, muito grande. Seis ou oito renas? O menino não sabe contar. As rédeas do trenó nas mãos de um velhinho. Barbas brancas, muito brancas. A roupa vermelha... Papai Noel! Vontade de gritar. O trenó segue rápido, muito rápido. O menino quase fica tonto. Segura-se. Um saco cheio de presentes. Vai dar tempo de entregar tudo? O menino olha a lista. Letras, muitas letras. Seu nome está ali? O menino ainda não sabe ler. O trenó para. Papai Noel entra numa casa. Não demora a regressar. A viagem prossegue. Vontade de perguntar tanta coisa. Papai Noel responde? O menino tem medo. Não quer atrapalhar o Natal das outras crianças. Outra casa... E outra casa... Mais outra... O saco vai ficando vazio, vazio... Quase fim de noite. Restam poucos presentes. Qual será o meu? O menino quer perguntar. Mas fica calado. Não quer estragar a surpresa. Esperou o ano todo. Prometeu respeitar a mãe, tirar notas boas na escola, não dizer nome feio. Cumpriu sua promessa. Merecia a bola de futebol. Não merecia? O velhinho salta do trenó. Entra noutra casa. E o menino fica ali, quietinho. O velhinho demora a voltar. O menino fica preocupado. Esquece até da bola de futebol. O que aconteceu? De repente, as renas se assustam. O desequilíbrio. O menino cai, cai... O vazio. A janela bate com o vento. O menino se acorda. Olha em volta. Casa pobre, muito pobre. Pequena. Quase sem tinta. Uma cama. Cinco pessoas dormem. Cadê a minha bola de futebol? O menino procura, e procura, e procura. Papai Noel existe. Não foi assim que ele viu na tevê? O coraçãozinho do menino bate forte - quase sai do peito. Volta à janela. Uma luzinharisca o céu. Então, não é sonho. É o trenó que brilha. E o menino já se imagina chutando a bola, fazendo gol... Quer chamar a mãe. Quer chamar os irmãozinhos. Todos dormem. O menino olha de novo. Céu nublado - o breu. Cadê o Papai Noel? O menino fecha a janela. Afasta o bracinho do irmão. Deita-se na cama. Fecha os olhinhos. Dorme. E não sonha mais.

 

 

MINHA CIDADE


Júlio de Queiroz - Florianópolis,SC

Sempre que volto à minha cidade
seu ar está suave, cheirando a nova sementes.
Que os prefeitos de minha cidade são incompetentes
grasnam os vereadores de minha cidade,
que todos os passantes atestam gastadores inconsequentes.
Na minha cidade, os vizinhos cumprimentam-se
amavelmente,
mas, por (de)trás de cortinas entreabertas, meneiam
cabeças
inclementes.
As ruas de minha cidade dão voltas como serpentes.
Cresceram assim, voluptuosas e irreverentes.
Na minha cidade, nem o caminho para o cemitério é reto.
Mas, o mar, o mar, o mar de minha cidade
lava e abençoa todos na sua grandeza indiferente
e faz de minha cidade um lugar tão bonito
que seu ar é sempre fresco, cheirando a novas sementes.
Poema extraído do livro Minha Cidade Amada

 

 

O DIA MAIS MAGICO DO ANO

 

Urda Alice Klueger - Blumenau, SC


(...) Nunca esqueço que, o tempo todo, nos dias de Natal, o rádio estava ligado na Rádio Nereu Ramos, que transmitia músicas natalinas entremeadas com votos de boas festas de todas as casas comerciais da cidade e, mais que tudo, eu gostava daquelas musiquinhas tocadas pela harpa paraguaia de Luís Bordon, e o dia fugia dentro dos muitos afazeres, ao mesmo tempo em que parecia que nunca iria anoitecer.
No final da tarde, enfim, tudo estava pronto, tudo no seu lugar e era hora de tomarmos banho e botarmos roupas limpas. Era dia claro, ainda, e jantávamos frugalmente, pão com sardinha e nata, enquanto lá fora, as cigarras quase arrebentavam de tanto cantar, emissárias certas de que a magia só iria aumentar com o cair da noite. Nessas refeições de prelúdio de Natal, era mister que comêssemos uma melancia, e a degustávamos nervosamente, loucos para que a noite caísse e as coisas começassem a acontecer.
E então escurecia. Estava chegando a hora. Minha mãe pegava seus melhores pratos de porcelana, enchia-os de doces de Natal e os levava para a sala. Ela e meu pai acendiam as velinhas coloridas do pinheiro enfeitado, dando-lhe um ar de magia que só poderia existir, mesmo, numa noite assim. E nós nos sentávamos, angustiados, expectantes, quase explodindo de tensão, porque sabíamos que logo logo Papai Noel iria bater na porta. O mundo ficava tomado de tal encanto, que era difícil de suportar, enquanto as cigarras continuavam cantando e o pisca-pisca do pessegueiro continuava piscando. As velas do nosso pinheirinho ardiam misteriosamente, quando ouvíamos o portão bater, certeza inconfundível de que o Bom Velhinho viera. E então tínhamos certeza de que não poderia haver no mundo nada melhor do que aquilo, aquele dia de nervosismo e aquela noite de magia!

 

 

GOSTO

Aracely Braz São Francisco do Sul, SC

Do perfume da flor,
do verde das folhas,
do céu azulado,
do balé das nuvens,
do sol que aquece,
do brilho da lua,
da chuva que cai,
da brisa que sopra,
da estrada sem curva,
do homem que luta,
das lindas cascatas,
do rio que marulha,
do amigo sincero,
das ondas do mar.
De tudo o que somos,
obras perfeitas
de Deus Criador.

 

 

O NASCIMENTO DOS POETAS

Marinaldo da Silva e Silva - Joinville, SC


Logo no primeiro contato com o mundo, ele solta o grito. Estrelas que o anteciparam dão-se a saltar dos olhos. A poeira baixando à estrada não tem nada de silêncio, os pés tratarão de cozer caminhos para que a pele esfolada esfolie e sobreponha a carne. Os olhos dele, ainda desatentos aos movimentos do mundo, captam o espírito das coisas. Para os poetas, as caixas, os vazios, o carvalho, a mesa, o copo, o vinho, a água, o pólen, a ratoeira e o rato, tudo tende a ter espírito. Ele observa na curvatura da sombra uma luz taciturna, taumaturga, traumatizando a quantidade de graus que nosso olho pode captar. Mas ele já enxerga, sua mão aponta, tem fisionomia de ser um milagre o seu sorriso. Tem musicalidade no seu choro e grito, e como se cantasse uma música estrangeira em ritmo pátrio, ele miscigena a posição das coisas e elas ficam contentes!

Depois, ele cresce um pouco, aprende a usar metáforas, provoca o raciocínio, diagrama as lendas, transforma ouvintes em ovelhas, pasteja a língua, sonda as palavras para dentro delas, carneja o verbo, decepa dos adjetivos seu poder de elevação e o coloca na superfície, dando a todos os homens com quem fala a capacidade de igualarem-se. Então começa a pedir para olharmos os campos do Senhor, e quem é esse Senhor senão Ele, nos compara aos lírios. Diz-se que cegos carregando outros irão sempre a um buraco. Fala de portas largas e estreitas, destrincha os olhos, as mãos, confunde e clareia, faz com que saboreemos o impossível apresentando-nos a palavra fé.

Depois, durante séculos e milênios, transforma-se em marco, em arco, em flecha, em fuga, em rota, em corrente de água, em correnteza. Concede-nos a lágrima, desperta na fome, na depressão das pedras, na depressão da pele, na depressão da pressão que faz a mão quando arranca a flor do talo, ainda em botão, e mesmo assim ela desabrocha. O nascimento dos poetas tem alguma coisa de divina, semelhante, parecida, quando pensamos nossos ouvintes como se todos fossem entender a nossa mensagem. Quando nossas metáforas esquisitas abraçam temas antigos e querem repaginá-los. Quando olhamos o campo com amor, porque ninguém conhece tanto o amor quanto a solidão que tem o poeta quando sente o vento entrando bem devagar pela janela e movimenta o ar, tira a concentração quando ele escreve e, naquela hora, todas as coisas tomam outras formas, e novas ideias surgem. E ele tem que ler o que escreveu de novo para não perder o fio da meada, para não perder a moeda de troca que é a ideia e o rascunho, o desenho da imagem ainda no pensamento e a caligrafia torta, tortuosamente ganhando forma, ritmo, vida, até que se transforme num poema e de repente a solidão desse poeta amenize-se com aquele simples e duro gesto que teve: trazer ao mundo sua iluminação, a sua contribuição para evangelizar a sua maneira, os lírios do campo que o poeta Jesus viu dentro da alma de cada ser.

Feliz Natal amigos, irmãos. Feliz Ano-novo aos amigos que ainda desconheço. Felizes nascimentos e partos aos poemas. Felicidades aquelas pessoas que precisam de mais harmonia que eu. Saciedade aos espíritos que precisam de Deus e para aqueles que não acreditam, sinceros desejos de que passem a acreditar.O primeiro mandamento dos poetas é acreditar na mágica.

 

 

ECO 1

Harry Wiese - Ibirama, SC

Em tempos de arroubos raros
Reavivarei as matas destroçadas,
As bromélias desfolhadas
E os xaxins transformados em vasos
Para orquídeas azuis.

Observarei as linhas da cipoada,
Ligas perfeitas, fiação segura,
Caminhos formigueiros, amarras gigantes,
Teia natural, nicho de espécimes em extinção.

Estarei ali,
Sem cerimônias e constrangimentos.
Sim, estarei ali,
Com a instrumentária edificadora:
A lavra da contemplação.

 

 

PARA AS CRIANÇAS


Enéas Athanázio - Balneário Camboriú, SC


Escrevi em outras oportunidades que o serviço prestado por Lauro Junkes (1942/2010) à Literatura Catarinense não tem preço, é impagável, e uma das formas de retribuir em parte o seu trabalho é cultivando sua memória e sua obra. Desde que o conheci, e lá vão 35 anos, ele esteve sempre às voltas com a produção literária de nossos autores, examinando, analisando, julgando, desde os mais antigos, cujas obras estudou e organizou, até os mais recentes, tanto em prosa como em verso. Não incidirei em exagero e creio que todos concordarão comigo que qualquer autor iniciante só ingressava no meio literário para valer após o aval dele. Sua manifestação constituía uma espécie de batismo, uma recepção, um gesto de boas-vindas. E isso não se fazia através de simples notas mas de artigos extensos, estudados, analíticos. Foi assim comigo e com numerosos outros e durante longo tempo. Não sei como conseguia tempo hábil para tantas realizações, considerando-se que também exercia o magistério superior e presidia a Academia Catarinense. Por tudo isso, sua ausência faz imensa falta em nosso meio literário.

Observando de longa data o quanto nossa literatura era desconhecida dos próprios catarinenses, - e em grande parte ainda é, - impôs-se a hercúlea tarefa de sistematizá-la para permitir uma visão de conjunto de nossa produção. Não satisfeito em comentar as obras para adultos, inclusive de autores clássicos que andavam esquecidos, realizou longa e exaustiva pesquisa sobre os autores infantojuvenis e que desejava trazer até os dias atuais, no que foi impedido pela longa doença que o venceu. Seu esforço, no entanto, não se perdeu. Num trabalho arrojado e meritório, sua esposa, a Professora Terezinha Kuhn Junkes organizou o material por ele estudado e o reuniu no volume "A Literatura Infantojuvenil Catarinense na Perspectiva de Lauro Junkes" (Copiart - Florianópolis - 2012 - 302 págs.). E assim dotou a estante catarinense de importante fonte de informação antes inexistente a respeito desse gênero literário dedicado às crianças. "Nosso Estado - escreveu Lauro Junkes - conta com um potencial produtivo relativamente bom; falta, porém, circulação do livro e mais eficiente motivação para a leitura" (p. 21). E, com efeito, a circulação do livro, através de uma distribuição eficiente, é um mal que nos aflige a todos os autores catarinenses. Por outro lado, iniciativas vitoriosas, como o Projeto Autor/Escola, que tanto divulgou nossos escritores, não teve prosseguimento.

Na primeira parte, a mais longa do volume, o crítico analisou, em ordem alfabética, a obra de todos os autores infantojuvenis, desde aqueles que produziram muito até aqueles que se limitaram a escrever uns poucos textos. Todos mereceram uma atenção especial, acentuando o lado positivo de seu trabalho e adicionando sempre uma palavra de estímulo. Muitas dessas abordagens constituem verdadeiros ensaios. Na segunda parte, o Autor abordou o concurso de histórias para a infância catarinense, promovido pela LADESC, em 1984, registrando a série de vinte fascículos publicados e os respectivos autores. Comenta ainda a iniciativa da Prefeitura Municipal de Ipumirim ao criar nas escolas a Biblioteca do Pequeno Leitor, incentivando o contato direto das crianças com o livro. São iniciativas modestas mas merecedoras de aplauso porque constituem, pelo menos, tentativas de quebrar a indiferença reinante. Por fim, encerrando o volume, Lauro Junkes abordou o teatro infantil em nosso Estado.

Além de importante contribuição às nossas letras, trazendo a lume copiosa produção de Lauro Junkes, o meticuloso trabalho de organização da Professora Terezinha constitui bela e merecida homenagem a quem tanto deu de si em benefício da cultura literária catarinense.

 

 

INVENTOS

Rosângela Borges - México

Nada demais.
Era uma chuva fria
Uma dança louca,
Um beijo, um inverno, uma folia.

Faz tempo.
Era uma pressa danada
Umafesta qualquer,
Uma tempestade, uma história, uma calçada.

Outroamanhã.
Era um sonho pequeno.
Uma rua escura,
Uma tarde, um toque, um veneno.

Aquela madrugada.
Era um abraço lento.
Uma noite rara,
Um rio, um sol, um invento.

Nada demais.
Era uma agonia, era um dia, era uma metade.
Eu vou pra casa.
Já está tarde.

 

 

POESIA BRASILEIRA NA EUROPA


Por Luiz Carlos Amorim - Escritor - Http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br


Na semana que antecedeu o Dia do Poeta, publiquei alguns poemas meus na minha página no Facebook e também na página do Grupo Varal do Brasil. Pois no dia 18 de outubro, a Cristina Davet leu uma crônica minha que sugeria que lêssemos mais para nossas crianças e comentou: "Hoje lemos poemas seus num sarau lá na casa da dona Helen Debyn. Você escreve muito, Amorim, parabéns!" Não é pra ficar feliz com uma notícia dessas?
Passada a emoção, fiquei matutando cá com meus botões: mas a Cristina não mora em Genebra, na Suiça? Pois mora. E a dona Helen, que cedeu a casa para o sarau, é nada mais nada menos do quea brasileira que esteve no Salão Internacional do Livro de Genebra, procurando-me para me dar um abraço e comprar meus livros. E foram esses livros quefizeram com que meus poemas fossem lidos na casa da dona Helen, no sarau que reuniu muita gente boa: além da Cristina, o Marinaldo, sobrinho da dona Helen, escritor de Joinville, a escritora brasileira Maria Clara Machado, que eu também conheci no Salão, e muitos outros.
Não é uma beleza? É sensacional ter a poesia da gente correndo o mundo, sendo ouvida em alto e bom som, na voz de outros poetas, num cantinho aconchegante da Suiça. Dona Helen é um criatura amantíssima, é um poema de ternura, só podia ser ela a acolher uma plêiade de poetas e possibilitar que acontecesse um sarau internacional.
O Marinaldo eu já conhecia aqui do Brasil. O Grupo Literário A ILHA, do qual sou fundador e coordenador, passou boa parte dos seus trinta e três anos de atividades em Joinville, e conheço o agora escritor desde pequeno, pois ele foi mostrar-nos, ainda muito jovem, um dos seus primeiros trabalhos quando fazíamos o Varal da Poesia, em plena praça.
As outras pessoas aqui citadas eu conheci em Genebra, daí a importância da participação no Salão Internacional do Livro de Genebra. Não estarei participando da próxima edição, em 2014, mas mais adiante, com certeza, estarei voltando à Suiça para esse grande evento literário e para abraçar de novo a dona Helen, a Maria Clara, que espero vá, também, de novo àquela grande festa, a Cristina Davet e tantos outros amigos que fiz. Como a Jacqueline e o Paulo, que possibilitam a participação de nós, brasileiros, em tão grande evento.

 

 

QUEM SOU

Jacqueline Aisenman - Suiça

Eu não sou monja
e no entanto
tantos silêncios
tombaram
de meus lábios
em horas erradas,
pronunciando sentenças!
Ah! Vaidade!
Ah... A temperança
que busquei
durante toda a vida!
Por certo foi ela!
Foi sim, foi ela...
O silêncio e as palavras
condenaram-me,
libertaram-me,
transtornaram-me,
tornaram-me
quem sou!

(Jacqueline é editora do Varal do Brasil, em Genebra)

 

 

DÚVIDAS SOBRE PAPAI NOEL

Hilton Görresen - Joinville, SC


Eu não acreditava em Papai Noel, acreditando. A gente nunca sabe... Dizem que o bom velhinho, apesar de toda aquela pança, entrava em nossa casa pela chaminé. Mas como, se lá em casa não havia chaminé? Meu pai nos mandava sair e ficar aguardando no cais em frente, enquanto Papai Noel depositava os presentes debaixo da pequena árvore enfeitada.
Comecei a desconfiar de que aquele negócio todo era balela quando, uma semana antes do Natal, descobri embrulhadinha no guarda-roupa de meu pai uma bola de futebol, de couro vermelhinho, a mesma que eu havia pedido ao bom velhinho.
Para intensificar minhas suspeitas, descobri que o velhinho de vermelho e barbas brancas que algumas vezes vinha em pessoa nos entregar os presentes tinha voz parecida com a da filha de nosso vizinho, seu Tomé, embora tentasse disfarçá-la, procurando falar grosso. Mesmo assim, eu sentia certo receio, pois o desgramado sabia todas as travessuras que eu havia feito. Pensei em dar um puxão na sua barba para confirmar; mas, e se fosse mesmo Papai Noel? "Perigava" ele não atender mais minha lista de pedidos. Não sei por que motivo, o velhinho só me trazia uma pequena parte dela. Pedia um carro de verdade e recebia um caminhãozinho de madeira.
Desconfiei também de um sujeito barbudo que passava sempre em minha rua, mais velho do que a primeira calcinha da Dercy Gonçalves. Um dia resolvi abordá-lo:
- O senhor é que é o Papai Noel?
Ele me olhou carrancudo:
- Menino, vai te bugiá!
Não preciso dizer que a terrível dúvida continuou. Mas era capaz de Papai Noel existir mesmo, pois até os comerciantes acreditavam nele, principalmente seu Ademar Branco, que tinha uma loja de brinquedos.
Fosse quem fosse o Papai Noel, a gente costumava ganhar bons presentes. Bolas, jogos, futebol de botão, almanaques de gibi de fim de ano. Armas de brinquedo, a gente ganhava em todo Natal. Eu tinha em casa um verdadeiro arsenal, de dar inveja a muito traficante. Era um tempo de culto ao velho faroeste. Nossa principal brincadeira era o "camone", corruptela de "came on", expressão dita pelo mocinho com a arma apontada para seus inimigos.
Na manhã seguinte, não se podia faltar à missa solene na Igreja Matriz. Tinha vontade de ficar em casa, curtindo meus novos brinquedos, mas Deus que me livrasse se a Madre Superiora do colégio não me visse na igreja.
Hoje, sei da simples e boa verdade: Papai Noel somos nós, pais e avós.

 

 

BAILANDO


ErnaPidner (Ipatinga-PR)

Esplendorosa manhã,
convite à vida!
Bailam pensamentos contidos
de liberdade, harmonia
e plenitude.
Tua presença
instiga meus instintos
bailarinos do desejo
de ver-me seduzida...
Bailando renascem
emoções retidas
repletas de cores,
aromas, sabores...
Baila comigo
vontade tamanha
de um mundo melhor...
Desejo antigo
teu olhar penetrante
desnudaminh´alma;
bailando atrevido,
me tira o sossego,
a paz e a calma!

 

 

O EUCALIPTO DE NATAL


Else Sant´AnnaBrum - Joinville, SC

No meio de um grande bosque de pinheiros havia apenas um eucalipto. Desde pequeno ele sentia a diferença entre ele e as outras árvores. Todas elas, no entanto, tratavam-no com tanto carinho que ele vivia feliz ali. Era como se o eucalipto fosse o mascote daquele bosque.
Nas conversas de todos os dias ele era o primeiro a contar o que avistava, pois via longe sendo mais alto.
Suas folhas perfumadas eram apreciadas pelos pinheiros que muitas vezes se queixavam de não possuir folhas lisas e sim espinhos.
Os pássaros que costumavam pousar em seus ramos contavam-lhe sobre seus irmãos em outros bosques formados por árvores de sua espécie.
- Olhe, dizia um bem-te-vi que era muito seu amigo. Conheço eucaliptos que chegam a medir setenta metros ou mais. Você deve medir uns trinta metros. Fique contente em viver meio escondido aqui, porque seus irmãos são cortados para serem transformados em madeira de construção, papel e uma variedade de outras coisas.
O eucalipto confidenciou para o amigo:
- Não tenho receio de ser cortado para ser útil a alguém, mas meu grande sonho é ser enfeitado para festejar o Natal do Menino Jesus assim como meus amigos pinheiros.
O bem-te-vi então, em segredo falou para a gralha azul, que falou para o tucano, que falou para a águia, que voou ao encontro de uma estrela cadente e lhe contou o desejo do eucalipto.
A estrela sensibilizada desceu até o bosque de pinheiros, prendeu-se no eucalipto e sacudindo sua cauda espalhou seu pó dourado em suas folhas.
O eucalipto transformou-se numa árvore fosforescente que passou a iluminar todo o bosque. Até os pinheiros ficaram brilhando com os respingos dourados que receberam. A estrela prometeu ainda que ninguém haveria de cortar aquele eucalipto que tanto quis prestar sua homenagem ao Menino Jesus e que em todos os Natais o fenômeno se repetiria.
Um velho pinheiro, o mais velho daquele bosque falou comovido:
- Nosso bosque não tem apenas um eucalipto. Tem agora um eucalipto de Natal!

" Else Sant´Anna Brum, escritora infantil e educadora.

 

 

 

TÔ CONTIGO E NÃO ABRO


Norma Bruno Florianópolis, SC

Tô contigo e não abro.
Ou melhor, abro.
Abro e fecho, subo e desço,
Pinto e bordo, canto e danço,
Como e bebo,
Voo e nado,
Rio e choro,
Mas, de preferência, rio.

 

 

 

 

UM "PUXADINHO" PARA CRUZ E SOUSA

Por Luiz Carlos Amorim - Escritor - Http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br



O dia vinte e quatro de novembro marcou a passagem de mais um aniversário do nascimento do nosso grande poeta simbolista Cruz e Sousa, o maior poeta catarinense, conhecido no Brasil e no mundo.
Os restos mortais do maior poeta catarinense, trazidos de Minas para o Rio em trem de carga e finalmente vindos para Santa Catarina em 2007, foram de novo para a senzala, que o local onde foi construído o "Memorial" Cruz e Sousa é justamente o lugar onde ficava a senzala do casarão que hoje é o Palácio Cruz e Sousa. Os ossos do grande mestre do Simbolismo ficaram esperando todo esse tempo - três anos, que o memorial, prometido pelo Estado para 2008, só foi inaugurado depois do aniversário do poeta de 2010 - para voltar à senzala.
E o tal Memorial, que deveria ser um lugar para receber público para reverenciar a memória do grande poeta, resultou num cubículo que nunca foi usado para nada, a não ser a inauguração.
Ontem, dia 27, estive numa seção da Academia Desterrense de Letras e um desabafo da acadêmica Telma Lúcia Farias me chamou a atenção. A seção solene era em homenagem a poeta maior Cruz e Sousa, pela passagem da data de seu aniversário, no dia 24, e a acadêmica pediu um aparte para lembrar que todos estavam fazendo homenagens ao nosso poeta, mas ninguém havia lembrado que os restos mortais dele foram trazidos para Santa Catarina e estavam esquecidos num "puxadinho" construído pelo Estado, nos fundos do Palácio Cruz e Sousa.
Achei muito oportuna a fala da acadêmica, porque tenho escrito diversas crônicas sobre o assunto, cobrando do Estado que resgate a dignidade de tão importante figura da cultura catarinense, construindo um Memorial à altura do grande nome que ele é. E é tempo, mais do que tempo de a Fundação Catarinense de Cultura deixar de prometer e fazer, efetivamente, alguma coisa. Se passarmos por lá, pelo "memorial", no centro de Florianópolis, vamos constatar que ele está fechado e que ninguém está fazendo obra nenhuma no local, apesar de ter sido prometido pelo Estado, através da FCC, que os erros seriam corrigidos.
Precisamos nos unir para exigir que o Estado construa um Memorial condizente com a importância de Cruz e Sousa para a cultura do nosso Estado. Não é possível que o poeta que representa o simbolismo brasileiro, o maior poeta do Estado, continue a ser humilhado em sua própria terra. O correto, mesmo, era fazer o mausoléu para acolher o nosso poeta mor dentro do Palácio Cruz e Sousa.

 

 

SOBRE O TRAVESSEIRO

Por Maura Soares - Florianópolis, SC


Sobre o travesseiro rabisco estas notas.

É noite, quase madrugada.
Sob a luz do abajur,
registro a solidão
através de breves palavras.
Busco na memória os momentos felizes
da juventude.
Foram tantos...
Tantas, também, as decepções.
O amor ideal é difícil de encontrar,
pelo menos, encontrar alguém
que compartilhe os sonhos,
que divida as tristezas,
que ria nas alegrias,
que dê carinho na hora do amor.

Sobre o travesseiro,
a letra escarranchada em papel rascunho
manchado de tinta.
O sono está chegando e,
na breve interrupção de um cochilo,
rabisco a esperança
de que um novo dia
vai chegar.

 

 

AH, ESTÃO CHEGANDO AS FLORES...



Mary Bastian - Joinville-SC

 

Esta é a letra de uma marcha rancho, cantada em outras épocas, e que talvez só o pessoal da terceira idade se lembre. Eu mesma só lembro da música, a letra ficou no tempo.
Mas me deixem falar da Primavera, com letra maiúscula, e que foi um tempo em que despertei pra esta delícia que é a adolescência, que sentir o vento sacudindo os cabelos era como se mil segredos fossem soprados nos nossos ouvidos, em que se cantava tomando banho de chuveiro quase frio, que se fazia piquenique com o colégio, todo mundo numa traseira de caminhão por uma estrada de terra, até um potreiro de um amigo com grama verdinha e um riacho sombreado.
Era o tempo em que se corria descalça, pulando moitas de capim cidró, se tomava banho no riacho de roupa e tudo e depois secava ao sol. Os manacás enchiam o ar de perfume, competindo com os cinamomos carregados de florzinhas roxas e cheirosas.
A gente era feliz com pouca coisa, nesta idade, e eu morava no interior onde nada acontecia, a não ser as reuniões dançantes nas tardes de domingo, em que os guris ficavam na porta esperando a coragem chegar pra "tirar" a gente pra dançar. Mas era muito divertido. Eles nem sabem os comentários que se fazia a respeito deles.
O jardim lá de casa desabrochava em petúnias, cravinas, amor perfeito e tudo mais que a mãe plantava. Eu amava esta época em que , quando menos se esperava, vinha uma chuvarada e a gente ia pra rua tomar banho e gritar mais um pouco, pra dar vazão aos hormônios.
Mas o tempo, ah! o tempo, passou tão depressa, inventou tantas novidades tecnológicas, tanta sandália de grife, que ninguém mais anda descalço, ninguém mais te olha nos olhos pra conversar, porque tem um iPOD ou um celular último tipo nas mãos. E também não sabem os nomes das flores, das árvores , dos pássaros. Sinto saudades da ingênua Primavera da minha adolescência. Mas fazer o quê?

 

 

LXXIII


Gil Salomon - Jaraguá do Sul - SC

uma frágil teia
captura o momento
eternidades passam
como o fugaz clarão
de um raio distante
sombras
reflexos de algo que não se expõem
da frágil nau que me conduz
estendo os braços
tateio à procura de alguém
talvez você
talvez eu mesmo
talvez

 

 

PEQUENOS MOMENTOS


Célia Biscaia Veiga - Joinville, SC


Outro dia, fui assistir a uma peça infantil que resgata músicas geralmente cantadas na primeira infância, acompanhadas dos gestos apropriados. O nome da peça é "Cantando com a Fada Sol", agrada a crianças de todas as idades e a adultos também.
Foi bonito de ver a plateia formada em sua maioria por crianças pequenas acompanhadas pelos pais. Um grande número de pais, não apenas de mães. E o mais bonito ainda foi ver aqueles pais e mães cantando e fazendo os gestos das músicas junto com os filhos, sem medo de pagar mico. Ali o que estava valendo era o agradável momento em que, provavelmente, aqueles pais estavam recordando sua própria infância, pois sabiam as coreografiasdireitinho. E para os pequenos, a alegria estava estampada no brilho dos olhinhos, enquanto ouviam a fala dos artistas e quando soltavam a voz cantando com a maior alegria.
Presenciei também uma cena muito bonita: foi quando uma menininha de uns 4 anos, mais ou menos, subiu na cadeira para dançar e a mãe explicou que ela devia descer porque quem estava atrás tinha o direito de ver, também, a peça e se ela ficasse em cima da cadeira, iria atrapalhar a visão dessas pessoas. A menininha desceu e continuou cantando e dançando com a mesma alegria.
Digo que esta foi uma cena bonita, porque mostrou que existem pais preocupados em formar filhos conscientes, que mostram que é possível aproveitar as boas coisas da vida sem impedir que outras pessoas também a aproveitem. É assim que se formam cidadãos dignos e honestos, que não vão querer "dar um jeitinho" para se dar bem, se perceberem que estarão prejudicando outras pessoas, mesmo que sejam desconhecidas.
São essas atitudes pequenas, mas grandiosas no resultado, que nos fazem ter a certeza de que está sendo construído um mundo melhor, por mais que se façam prognósticos sombrios. Ainda que se noticiem todo tipo de catástrofes causadas por pessoas com desvios de caráter, se nós estivermos predispostos a olhar ao nosso redor sempre poderemos identificar situações que não aparecerão na TV nem nos jornais, mas que na soma total da sociedade farão a diferença para muito melhor.

 


O OUTRO

Terezinka Pereira - USA

Tu não estás em mudança de vida.
Tu és o que decidiste ser
e já não podes mudar.
Talvez isto não dependa só de ti,
porque há um outro como tu
que depende das circunstâncias
em que deixas tuas opiniões.
Estar cansado, arrependido
não chega para redimir teu passado.
Foste demasiado bondoso
mas muito equivocado.
Ser bom é, às vezes, ser arrogante.
Sei que até eu mesma errei contigo
mas consegui manter-me independente
e posso seguir meu destino
sem recordar-me de ti.

 

 

PRESENTE DE PRINCESA

Karine Alves Ribeiro - Blumenau-SC

Em meus sonhos, eu posso comprar todos os vestidos mais bonitos e os sapatos mais delicados para a minha pequena princesa. Entrego-os a ela com satisfação e ela os recebe com muita alegria. Sorri o seu sorriso de lábios pequenos e florais e brilham os seus olhos, que são da cor do céu em noite de primavera.
Impressionam-me muito, os seus olhos, como dois faróis, hora me cegam, hora me guiam. Limpos e serenos, como quem tem sabedoria e que se tornam lúdicos, dançantes, diante dos doces que mais gosta. Longínquos como os mais belos montes, quando estão diante de uma folha de papel em branco e lápis coloridos. Tenazes, quando ela me pede alguma coisa que quer muito. Hipnotizadores, quando olham nos meus, nos momentos que estou triste ou desanimada, porque me mostram o universo: seres, planetas, estrelas, luas, sóis, galáxias inteiras moram dentro daqueles olhos cândidos e incautos. A profundidade deles me faz mergulhar no infinito da vida, esquecer que sou somente célula, revira-me e transforma-me em algo muito melhor que ser humano. Concita-me a ser eu, inteira, terra e mãe, sal e lua, nua de ais, repleta de estrelas.
Por isso, como mãe, podo-lhe os pendores, próprios de uma princesa um tanto mimada. Traz dentro de si, sem maldade, o ímpeto da realeza! Tento ensiná-la que humildade é grandeza, para que cresça livre de dores e decepções. Mas também sirvo-a com orgulho e respeito, seja acolhendo-a de joelhos, com a toalha, ao sair do banho, ou sugerindo o melhor traje para ela ir brincar no parque. Sempre sugiro, porém, ela escolhe - princesas tem sempre a opinião formada. Faço isto, porque é nesses momentos, que ela é só minha, é somente criança, esquece-se do reino inteiro que a espera para governar quando crescer. Nesses momentos, ela, às vezes, me abraça, e me beija o rosto... E tenho vontade de abraçá-la, muito e com força, mas o fato de amá-la tanto, não me dá o direito de detê-la fortemente, poderia machucá-la, e isto não quero, nunca! Prefiro pegar suavemente a sua mãozinha e assentá-la sobre meu peito, isto sim, acalma-me, energiza-me, me faz poder mais que andar lentamente...
Ela é o sabiá-laranjeira cantando na minha janela, é a própria poesia, é minha maior inspiração. Por isso, procuro esquecer-me das coisas que não posso dar-lhe, afinal, nada é dela merecedor. Ouço-a, pacientemente, declamar seus hinos, que reclamam e sonham... Dou-lhe, simplesmente, todo o meu amor!

 

 

LEMBRANÇAS-5

Selma Ayala - Jaraguá do Sul, SC

Fotografias...
Memórias esquecidas
Reveladas, revividas,
Espelho mágico do tempo...
Segredos do tempo
Sabor a dezembro
Chuva de dezembro
Sabor de natal
Flor de "boa noite"
Perfumando a noite neotrentina
Perfume de uva
Sabor de vinho
Tempo de natal
Sonhos de natal
Fotografias...
Flor de dezembro
Flor do mato, ingá, bacupari
Barba de vechio
Ninho de passarinho
Presépio
Sabor de natal...
Balanço na pitangueira
Flor de goiabeira
Sabiás, tiés araquãs...
Fotografias...
Memórias esquecidas
Reveladas, revividas
Segredos do tempo
Sabor a dezembro
Sonhos de natal
Fotografias...
Espelho mágico do tempo

 

 

BICHOS, GENTE


Flávio José Cardozo - Florianópolis, SC

Menino, tu que gostas de olhar os bichinhos do mundo, me diz uma coisa: qual deles querias ser se não fosses gente? Sabes que mais de uma vez me surpreendi pensando nisso?
Já fui pretensioso à beça. Pensei na água real, que voa a duzentos quilômetros por hora; pensei no condor, que é quase como um avião - tem três metros de uma asa a outra e sobe a mais de cinco mil metros; pensei no tigre, tipo aquele da Esso, de pelo rajado, salto atlético, cabeçorra de rei; pensei no urso-branco, um sujeito de setecentos quilos que vive no gelo e corre como um cavalo; pensei no cavalo, talvez o animal mais bem construído que existe, não sei se tu concordas.
Com o tempo, fiquei mais modesto. Ser um burro, por exemplo. Pensas que me chatearia se uma varinha mágica - toc! - me transformasse num bem orelhudo? Nada de piada, nada de dizer que já sou um burro bem orelhudo. Estou falando sério, falo do burro mesmo, de quatro patas, um camarada tão plácido e ao mesmo tempo tão dono de si, que embirra firme quando acha que não estão agindo certo com ele. Um burro não seria mau, podes crer.
Como não seria má a coruja. É feia? A gente é que diz que é feia, são nossos olhos bobos - para nossos olhos bobos ela de fato não serve para miss. Mas me agrada muito o jeito pensativo que ela tem, num toco de pau ou numa torre de igreja, jeitão que não a impede de ser habilíssima na hora da caça.
E por que não o grilo, esse cidadãozinho sempre escondido? Dizemos que ele é chato, ele que é apenas um cara persistente. Cismou em querer ser cantor e como trabalha para isso! Esfrega uma asa na outra cento e cinquenta vezes por segundo, sabias? Tenho certeza de que um dia ainda vai cantar nem que seja uma musiquinha xaropinha de uma dessas duplas ditas caipiras que existem por aí.
Pensei no crocodilo também, mas esse fica bom mesmo é para quem anda na política. Olha só: os sucos digestivos de um crocodilo conseguem desmanchar anzóis de aço, pontas de ferro, tudo o que empurraram goela abaixo do coitado. Se eu fosse político, ia ficar bem indeciso entre ser uma esperta raposa ou um crocodilo capaz de engolir tudo numa boa.
E nos dias de apertura financeira e eventuais atrasos em algum pagamento por que não ser uma vicunha? Sabes o que tem a vicunha de muito especial? Pois dizem que a vicunha com um minuto de vida já corre mais do que um homem. Barbaridade. Queria ver que cobrador me alcançava se eu fosse uma vicunha já adulta.
É tudo brincadeira. Isso aí é só um agrado nos bichos. Nasci gente e, por enquanto, até que estou gostando disso - dá umas tristezas de vez em quando, mas também dá umas alegrias. Por exemplo: só sendo gente é que se pode ter mesmo uma visão bem boa da maravilha que são nossos manos bichos - todos eles, grandes e pequenos.

 

 

PÉTALA DE ORQUÍDEA

 

Rita Pea - Portugal

 

Bela pétala de orquídea,
Que nasceu, nos rios das minhas palavras,
Cresceu, na Luz do meu olhar,
Um dia,
Adormeceu em silêncio
Embalada pelo mar…

 

 

FEIRA DO LIVRO DE FLORIANÓPOLIS

O Grupo Literário A ILHA estará, mais uma vez, participando da Feira do Livro de Florianópolis de final de ano, realizada no Largo da Alfândega. Este ano, ela acontece de 10 a 21 de dezembro e esta edição da revista Suplemento Literário A ILHA estará sendo lançada lá, no dia 13, assim como o novo livro de Luiz Carlos Amorim, "Histórias de Natal", bem a propósito, pois a feira será realizada pouco antes do Natal. Uma boa oportunidade para que possamos dar livros de presente para familiares e amigos. A organização da Feira do Livro de Florianópolis é da Câmara Catarinense do Livro.

 

 

CELEBREMOS O NATAL


Osni Leopoldo Batista - Joinville, SC

Na cidade de Belém,
Numa noite luminosa,
No céu surgiu uma estrela,
Revelando um grande sinal.
Nesta noite gloriosa,
Encantada, misteriosa,
Nascia para a humanidade,
Um grande líder espiritual.
O Menino Jesus nasceu,
Presentes régios recebeu,
E também uma Missão:
Trazer a Paz à Terra,
E fazer dos homens, irmãos!

 

 

FLICAM - FESTIVAL LITERÁRIO

O coordenador do Grupo A ILHA, Luiz Carlos Amorim, esteve, a convite dos organizadores, participando do FLICAM - Festival literário de Campos Novos, no planalto catarinense, no dia 20 de setembro. Ele fez uma palestra sobre Livro e Leitura e a Nova Literatura Catarinense e levou para a feira do livro, que fazia parte do FLICAM, os seus mais recentes livros: o novo "Histórias de Natal" - contos, "O Rio da Minha Cidade" - crônicas, "Nação Poesia" - antologia poética e "Borboletas nos Jacatirões" - crônicas.
Amorim ficou muito honrado pelo convite, pois este evento de Campos Novos é, na verdade, a primeira festa literária em nosso Estado, o primeiro festival literário catarinense. Evento de enorme importância esse primeiro FLICAM, pois pode servir de exemplo para outras cidades, no sentido de também organizar a sua festa. Um evento como esse traz o leitor para mais perto do livro, o que significa incentivo à leitura, e pode aproximar o leitor do autor. Ou o autor do leitor, como se queira.
O FLICAM levou para Campos Novos escritores e artistas catarinenses, numa integração harmoniosa com o público. Uma iniciativa cultural que só tende a crescer, pois certamente teremos novas edições, ano após ano.


SÁBADO LEGAL

Maria de Fátima B. Michels - Laguna, SC

A vitrine está cheia de cristais
A China é aqui em Laguna
ao sul de Santa Catarina
Hoje na nossa aldeia o sábado é legal
Significa que o comércio não fecha
e vai até de noite
O vento empurra as pessoas
para o crediário
Pelo rebuliço, a primavera virou natal
Dezembro será carnaval

O tempo é insuficiente para uma poesia
preguiçosa que eu desejava fazer
Ela se chamaria 'átimo'

Ana, Clarice e Wally passaram ali agorinha
Os três na mesma sidérea bike
Uma na garupa, outra no ferro e W.Sailor no selim

Ninguém notou porque os poetas, senhores,
ninguém vê. Para eles "não há vagas"...

 

 

ENCONTRO DE ESCRITORES EM JOINVILLE

Na foto, Júlio de Queiroz, professora Mariza Schiochet e Adauto Veira.

 

Depois de mais de vinte anos da realização de um encontro de escritores catarinenses em Joinville, realizado pelo Grupo Literário A ILHA, um novo encontro aconteceu no dia 9 de outubro na cidade da dança e das flores. O 1º Encontro Catarinense de Escritores da Confraria das Letras de Joinville reuniu escritores de vários pontos do Estado, além de trazer Gilberto Mendonça Teles, escritor de renome nacional, para uma palestra.
Escritores do Grupo Literário A ILHA também foram convidados e estiveram participando de mesa de debates, como Urda Alice Klueger e Júlio de Queiroz. O coordenador do Grupo Literário A ILHA não pode comparecer, por compromisso já assumido anteriormente.


 

EXPEDIENTE

Suplemento Literário A ILHA - Edição Nº 127 - Dezembro/2013 - Ano 33
Edições A ILHA - Grupo Literário A ILHA - Contatos: lc.amorim@ig.com.br
A ILHA na Internet: Veja o portal PROSA, POESIA & CIA. em
Http://www.prosapoesiaecia.xpg.com.br


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