SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA

Revista do Grupo Literário A ILHA

Março/2011

UMA ILHA ESPAÇOSA

O Suplemento Literário A ILHA chega a sua edição de número 116. Na próxima, estaremos completando trinta e um anos de atividades, de existência e resistência.
E a comemoração será antecipada, em maio, no lançamento da antologia do Varal do Brasil, da nossa amiga Jacqueline, brasileira que mora na Suiça. E além da participação na antologia de escritores do Grupo Literário A ILHA, estamos estudando a possibilidade de publicar, também, uma edição especial da revista Mirandum, da Confraria de Quintana.
Então, apesar da falta de reconhecimento do trabalho em prol da divulgação da literatura catarinense, aqui no Estado, seguimos em frente, sempre ampliando os espaços para que a produção dos novos chegue até o leitor.
Nesta edição do Suplemento, por exemplo, publicamos meia dúzia de escritores, catarinenses ou não, novos ou não, que não havia publicado ainda neste espaço.
O portal Prosa, Poesia & Cia., do Grupo Literário A ILHA, também publica sempre mais escritores e sempre mais novos. As antologias O TEMA DO POEMA, TODOS OS POETAS, FEIRA DE CONTOS E CRÔNICA DA SEMANA, além da revista eletrônica Literarte estão publicando mais autores.
Senhores leitores, reportem-se a nós, criticando, elogiando, dando sugestões. Nosso e-mail é lc.amorim@ig.com.br

 

MEU MONSTRO

Mário Tessari
(Jaguaruna-SC)

Estranho monstro
se agita em mim.

Sobre as ondas
De um mar raivoso,
Insaciável a boca espuma.

São ânsias, angúsitas,
a louca busca,
o desejo incontido...

N´alguma praia
quente e nua,
talvez repouse a paz
que não encontro em mim.

 

CARNAVAL

Por Célia Biscaia Veiga

Nunca pulei carnaval. Meu pai, mesmo gostando de música, não gostava de bailes, danças, e por isso nunca se associou a nenhum clube.
Minha mãe, quando solteira, participava de bailes de carnaval familiares, onde alguém da vizinhança cedia o salão (e só o salão mesmo) de sua casa, para reunir familiares e amigos mais chegados com suas famílias. Aquelas casas antigas sempre tinham um salão grande, próprio para essas comemorações.
No domingo do carnaval, minha mãe e seus familiares, assim como todos os participantes da festa, usavam a mesma fantasia: as mulheres se vestiam de homens, sentindo-se esquisitas usando as calças e camisas de pais, maridos ou irmãos e os homens colocavam os vestidos ou saias e blusas das mães, esposas ou irmãs, deixando à mostra as pernas cabeludas. E assim se divertiam sem precisar gastar o que não tinham com fantasias.
Os mais ousados colocavam anáguas e combinações (será que ainda se sabe o que é isso?) por cima dos vestidos, deixando as verdadeiras proprietárias das referidas roupas envergonhadas de verem expostas suas peças íntimas do dia-a-dia.
E a diversão corria sadiamente ao som das músicas de Noel Rosa ("Quando eu morrer, não quero choro, nem vela..." e "Um pierrô apaixonado, que vivia só cantando..."), Assis Valente ("Vestiu uma camisa listada e saiu por aí..."), Vicente Paiva e Jararaca ("Mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar..."), entre outras.
Depois de casada, como meu pai não gostava, nunca mais minha mãe participou dessas festas, que com o tempo, também acabaram..
Mas quando eu era criança tinha uma família que morava ao lado de nossa casa, em que a família toda era bem envolvida com as festas de Momo, inclusive participando de uma escola de samba. Um dos filhos tocava surdo na bateria, a caçula era porta-estandarte e a neta era destaque, dançando na frente de um dos blocos.
Fomos assistir ao desfile uma vez, e era lindo vê-las dançando. A neta era danadinha pra dançar, desde criança, carregava o samba no sangue. Muito graciosa, tinha o apelido de Biscuí por seus traços delicados. Ela sambando era pura poesia.
Agora fiquei pensando como ela estará agora, tantos anos passados sem vê-la, hoje certamente é uma senhora, na casa dos "enta", não sei se ainda costuma sambar, mas em minha memória o carnaval permanece associado a figura dançante dela como Biscuí.

 

 

ESTA CHUVA

Teresinkak Pereira(USA)

Esta chuva tem suspiros íntimos
que me tiram de um longo silêncio.
Esta Chuva de prata é fria como
o riacho de Ottawa que passa
chorando entre as casas vizinhas.
No verão, em suas águas corre
um mel amarelado, espesso e interminável.
Agora que volto a ouvir suas gotas
na erva seca nesta tarde escura,
imagino sua rota distante, perdida
entre míticas solidões e lôbregas grutas,
mais além do alcance de minha janela.
Esta chuva é quase anônima
e se perde na noite
como minha memória
olhando o tempo.

 

 

UM BOMBARDEIRO AZUL

Por Jair Francisco Hamms

Sabes, Flávio, naquele tempo, a gente dizia assim: quando eu for grande, quero ser tal coisa. Variava muito: aviador, bombeiro, médico, sargento da polícia, barbeiro, advogado, chofer de ônibus, professor, sapateiro.
Por exemplo: o Chico sonhava ser goleiro do Figueirense; o Dagmar, que era canhoto, queria ser ponta-esquerda do Avaí. Já o Joca, muito esganado, queria ser o dono da Padaria Brasil só para que, dia e noite, enchesse o pandulho de doce, empada, cocada.
Era época da guerra. Bombardeios na Inglaterra, bombardeios na Itália, bombardeios na Alemanha. Chovia bombas na Europa. Havia uma revista, chamada Em Guarda ? lembras, não é? ? que estampava fotos de simpáticos e sorridentes aviadores ianques, vestindo roupas de couro, toucas de couro e com óculos reluzentes. O Xandoca queria ser aviador, Flávio.
O Xandoca teve a perna esquerda mutilada por violentas tamancadas de seu pai, um infeliz alcoólatra chamado Ubaldo que, após aquela terrível agressão ao filho, ganhou o apelido de Tamanco, Ubaldo Tamanco. O Xandoca era assim magrinho, bem magrinho. E feinho. Cabelo arrepiado feito porco-espinho, dois grandes dentes como os de um coelho. Quando caminhava, apoiava a mão no joelho da perna sã e puxava a mutilada. Apoiava a mão esquerda...
O pobrezinho vivia sempre com recortes da revista Em Guarda e de jornais com reportagens ilustradas com fotos de aviadores americanos juntos aos seus bombardeiros. Ao mostrar-nos os recortes, os olhos de Xandoca brilhavam.
Mas um dia, era abril e o sol metia o nariz em tudo. Enfiava-se pelas folhas das figueiras, goiabeiras, laranjeiras, ameixeiras adentro, pintava o chão de dourado, secava os lençóis e roupas no quaradouro da dona Neli, da dona Vicentina, da minha mãe, da dona Tomásia, dona Júlia, fritava a careca do seu Schmidt, sempre de camisa branca, suspensório vermelho, calça curta, botas e sempre passeando com o cachorro, esquentava ainda mais o quarto de onde a Lurdes Maluca jamais saía. E refletia na cruz prateada do caixãozinho do Xandoca.
Nós fomos ao velório. Nós todos. Todos de camisa passada, de calça passada e, alguns, até de sapatos. O Xandoca parecia dormir. Só parecia, pois as moscas pousavam no rosto dele e ele nada fazia. Estava sorrindo. Dois dentões de coelho aparecendo. As mãos bem branquinhas, bem limpinhas, calça azul-marinho curtinha. E meias. O Xandoca morreu tísico. Não sofreu muito. Foi rápido. À noite tivera um febrão. E vomitou sangue. Aí, a dona Esmeralda foi chamar o dr. Cavalcanti. O doutor chegou mas não pode fazer nada. Era madrugada. Foi um reboliço. O Xandoca começou a variar, variar, variar. Dizia que tinham roubado o seu avião, um bombardeiro azulzinho. E no desespero, lançava aqueles gravetos de braços ao alto, agitava as mãozinhas ossudas em busca do avião furtado. E lutou, lutou, até que o alcançou. Em pleno voo. E voou para o Céu.

 

 

EM CASA DE GARCIA

Numo Rebocho (Cabo Verde)

Fui a tua casa, Federico Garcia. Mas tu não estavas,
nem o Horto era o que então havia. A porta fechada
escondia lendas vendidas com sobranceria. Tu não
estavas, Garcia, só o cicerone da casa que não tiveste
enquanto vagueavas em busca da tua morte, mesmo
a que não querias. A tua casa, Federico, não é a tua
casa: é uma porta por onde se entra para um vão de
escada e uma escada por onde se trepa até aos silêncios.
Granada nada sabe dos sortilégios nem por onde rumam
rotos de mortes, nem por onde sonham despidos
de mágoas. A tua casa, Garcia, já é branca e os curiosos
enfilam-se à porta com senhas nas mãos: matam-te
todos os dias, salvo nos de descanso. E às cinco da tarde
respeitam-te. Valem outras balas estas bulas de ironia
a cem pélas por visita, Federico Garcia. E os touros
que então havia e matavam como lhes cabia são agora
mansos ou embolados ou enojados. Crescem no Horto
nem nardos, nem cardos - só flores sem fantasia.
Fui a tua casa, Federico Garcia. Mas tu não estavas.
Os cicerones levavam-te para outra morte
em grupos de cinco. E cobravam a entrada.

 

 

ETERNAMENTE SCLIAR

Por Luiz Carlos Amorim

As letras brasileiras estão de luto: nós, que gostamos de boa leitura, perdemos mais um grande escritor, o gaúcho Moacyr Scliar. Ele faleceu na madrugada de 27de fevereiro de 2011, em Porto Alegre, sua terra natal.
Eu o conheci em Joinville, há um bom tempo, quando ele foi prestigiar a apresentação da teatralização de um livro seu, selecionado para o vestibular da UFSC e da ACAFE daquele ano, que eu já não lembro qual. Foi nos anos 90, se não me engano. Um cara simples, simpático, gentil, educado, culto. Dava gosto conversar com ele. Era atencioso com seus leitores e admiradores e era fácil fazer amizade com ele. Era carismático e não era só um grande escritor: foi, também, um grande médico, pois sabia tratar bem as pessoas.
A trajetória dele como escritor tornou-o um ícone da literatura brasileira. Em 1962, publicou o seu primeiro livro, quando ainda cursava a Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul: "Histórias de um Médico em Formação". Com grande talento e um incrível poder de observação, nos deixa quase uma centena de livros. Sua obra reflete um extraordinário conhecimento da tradição judaico - cristã. Recebeu inúmeros e merecidos prêmios literários e tem livros publicados na Inglaterra, Russia, República Tcheca, Eslováquia, Suécia, Noruega, França, Alemanha, Israel, Estados Unidos, Holanda , Espanha e Portugal. Alguns dos seus textos foram adaptados para o cinema e televisão.
Em 31 de julho de 2003 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras.
Então, não perdemos apenas o escritor talentoso e premiado: perdemos um amigo, do qual sentiremos falta mais do que da sua obra, pois ela está aí para relermos a qualquer tempo, recriando o seu legado.
Vai com Deus, Moacyr. Você continuará vivo na sua vasta obra, cada vez que alguém ler algum livro seu.

 

 

XIFOPAGIA

Maria de Fatima Barreto Michels
(Laguna-SC)

Nossos pulmões eram siameses.
Do jeito que éramos só conseguíamos
enxergar nossos olhos, reciprocamente.

Era suficiente.

Foi a vida, foi a vida.
Foi a ciência, sempre ela,
querendo arrumar o que é perfeito.

Daquele dia em diante meu coração
deixou de ser virgem.
Tenho certeza que foi com você!

 

 

NERUDA E O BRASIL

Por Enéas Athanázio

Pablo Neruda (1904/1973) tinha fascinação pelo Brasil, sentimento sempre retribuído pelos incontáveis leitores brasileiros que conquistou. Ricardo Neftali Reyes y Basoalto, nascido em Parral, no Chile, adotou em 1920 o pseudônimo pelo qual ficou conhecido em todo o mundo, vinha ao Brasil sempre que podia e cultivava com carinho uma fraterna amizade com Jorge Amado e Zélia Gattai, dos quais era compadre e fora companheiro nos tempos de exílio na Europa. A célebre casa do Rio Vermelho, em Salvador, onde residia o casal de escritores, guardou muitas marcas da presença do poeta chileno, sua personalidade exuberante e os ecos da sua voz em costumeiras declamações dos próprios versos. No livro "A casa do Rio Vermelho" (Record - Rio/S. Paulo - 1999), contendo uma parcela das memórias de Zélia Gattai, as referências ao poeta são frequentes, como em outros livros da autora.
Num dos capítulos mais interessantes, relata ela que Neruda foi à Bahia com o evidente propósito de se despedir. Ele pressentia que o fim estava próximo. Logo de chegada, pediu que não perguntassem por ninguém, pois "estão todos mortos e somos dos raros que ainda estão vivos." Apesar desse começo lúgubre, a visita foi alegre e descontraída. A notícia de sua presença se espalhou e a casa se encheu de escritores, poetas, artistas, músicos, jornalistas, gente da área cultural. Neruda declamou, com sua voz pausada, Matilde Urrutia, sua mulher, cantou uma canção com letra de Neruda: "Principe de los caminos, hermoso como um clavel, enbriagador como el vino, era dom José Miguel..." E todos puderam desfrutar com liberdade da companhia daquela figura carismática que parecia estar em casa sempre que vinha ao Brasil. Organizaram à sua revelia um recital de poesia na Escola de Teatro e um encontro na Ordem dos Trovadores aos quais ele compareceu, declamou, falou à multidão de admiradores, conversou e autografou. Repentistas e trovadores o saudaram em versos de improviso que muito o encantaram.
Mesmo tomando algumas notas em cadernos, Neruda afirmava que não escreveria suas memórias. "Um livro de memórias jamais tem fim. A vida continua. Novos fatos vão acontecendo..." - dizia ele, longe de imaginar que um dia seu livro de memórias seria dos mais lidos de toda sua obra. Foi Matilde, após a morte do poeta, quem organizou os originais e, driblando os perseguidores, conseguiu levá-los para a Venezuela, onde se transformaram em "Confesso que vivi", uma das mais fascinantes autobiografias de toda a literatura. No Chile, o país natal, a polícia de Pinochet movia encarniçada perseguição ao poeta, mesmo tendo ele falecido poucos dias após o golpe. Uma perseguição que prosseguiu após a morte, tanto que o sepultamento do poeta foi cercado de imenso aparato policial, como se temessem que pudesse reviver e colocar em perigo a ditadura recém-estabelecida. A notícia de que Matilde Urrutia organizava os originais das memórias do poeta provocou uma constante vigilância em sua casa e foi espionada até mesmo quando esteve no Brasil, onde policiais a seguiram desde que desembarcou. São lembranças dos momentos negros em que as ditaduras grassavam na América do Sul, inclusive no Brasil. "Confesso que vivi" e "Canto Geral" estão entre os livros mais lidos de Neruda. A L&PM Pocket vem publicando as obras do poeta em livros de bolso, contribuindo assim para a sua maior divulgação. Neruda foi dos raros escritores latino-americanos a receber o Prêmio Nobel e tem uma legião de admiradores em todo o mundo. Suas casas, em especial a de Isla Negra, atraem milhares de curiosos. A implacável perseguição que sofreu em seu país de nada adiantou. Enquanto os perseguidores desapareceram da memória coletiva, a dele está cada vez mais viva. (09/09/09)

 

 

QUAESTIO ÚNICA

Júlio de Queiroz
(Florianópolis)

Qual é o preço da paz?
Senhores letrados, dizei-me.

Bem sei que o preço da glória
É muita dor e incerteza.
Quem não sabe que o sucesso
É pago com escuridão e doenças?
Às crianças ensinamos
Que a morte é o preço da vida.

Mas vida, sucesso e morte
São sem valia sem paz.

Senhores doutores, dizei-me:
Que preço há de pagar um homem
Para, alegre e indiferente,
Ver nascer seu cada dia?

 

 

O ESTADO E A CULTURA EM 2011

Por Luiz Carlos Amorim

O novo Secretário de Estado da Cultura, Cesar Souza Júnior, parece ter chegado com muita disposição para colocar ordem na casa, embora o governo já tenha determinado redução de verbas para a sua pasta. O orçamento para este ano deverá ser menor, mas ele promete cumprir o que já estava contratado.
Desafios sobram para a gestão do novo secretário. Como a reforma do CIC, por exemplo, que já vai fazer o segundo aniversário. O teatro Ademir Rosa, o maior da capital, ficou fechado esses quase dois anos, á toa, pois a reforma nele, especificamente, ainda nem começou. Muito dinheiro já foi gasto com essa "reforma" no CIC e a coisa está mal parada, sem que ninguém responda pelo que está ou não acontecendo.
O nome do novo presidente da FCC, finalmente foi revelado. Foi confirmado no dia 11 de janeiro, o nome de Joceli de Souza. Indicação política, mas o novo presidente da Fundação Catarinense de Cultura atuou na Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esportes nos últimos oito anos e coordenou o Programa de Pontos de Cultura e o projeto de restauração da antiga Academia de Comércio de SC, que hoje se chama Casa José Boitex e vai acolher a Academia Catarinense de Letras. Tem, portanto, experiência com alguma coisa de cultura. Terá suficiente intimidade com as coisas da arte e da cultura catarinense para desempenhar com sucesso o cargo? Esperamos que, com a ajuda do Secretário de Cultura, ele consiga fazer o que deve ser feito.
E o secretário parece decidido a se impor e fazer mudanças na dita cultura oficial: deixar mais transparente as atividades do Comitê Gestor e do Conselho Estadual de Cultura, que deverão ser reestruturados, mudando as pessoas, implantando editais em todas as áreas e equalizando a distribuição de recursos, conforme entrevista publicada na imprensa.
Na referida entrevista, o secretário falou, inclusive, das compras milionárias de livros da gestão anterior, quatro ou cinco, como aquela de livro indicado para o vestibular, de Cristóvão Teza, distribuído para todos os alunos de final do segundo grau, considerado, no entanto, impróprio para os estudantes. Milhares de exemplares do mesmo livro, que acabaram entupindo bibliotecas municipais do Estado, quando poderiam ser substituídos por dezenas de outros títulos. O Estado nunca deu, antes, livros indicados para o vestibular para os alunos das escolas públicas. Quem autorizou a compra? Quem fez a licitação? O Secretário não deve responder estas perguntas, mas garante que compras sem a devida transparência não serão mais feitas. E não vou bater mais naquela antiga tecla, tão repetida, de que o dinheiro gasto com tantos livros que não sabemos se serão usados, poderiam ser utilizados na publicação de obras de autores catarinenses, a serem selecionados pela Comissão Estadual de Cultura, pois esses livros quase que certamente, serão das mesmas figurinhas carimbadas de sempre, da panelinha que sempre fez parte da "cultura oficial". Então, senhor Secretário, estamos com o senhor, quando diz que vai mudar o estado de coisas na Secretaria de Estado da Cultura. Faça o que tiver que fazer, economize e use bem o dinheiro público. Não deixe as "comissões" que existiram no passado puxarem a sardinha para o lado delas, como tanto fizeram até o ano passado. Confiamos que o senhor fará força para moralizar essa até agora tão malfadada "cultura oficial". O jornal "O Catarina", publicado pela FCC, precisa ter uma periodicidade - nos dois últimos anos aconteceram apenas duas edições, uma por ano - jornal que, além do visual, que modernizou-se, graças a Deus, há que melhorar a linha editorial, abrangendo a cultura e arte de todo o Estado. A cultura catarinense precisa de alguém que cuide dela com seriedade e boa vontade.

 

 

DISSOLUÇÃO DO SILÊNCIO

Joel Rogério Furtado
(Araranguá

É no Processo de Dissolução do Silêncio
que se percebe os contornos
da eternidade da poesia.

No seu trajeto
sempre será importante expelir
longos e profundos ecos
- fortes e lancinantes gritos
para o interior das fibras.
No desenvolvimento do Projeto Criativo
é absolutamente certo
que bailam enigmas (pelas esquinas)
à espera de alguém que os desvende.

Ao longo do mergulho para o alto
ou da queda para dentro
acabaremos concluindo
que o amanhã será importante
mas que o hoje pode ser para sempre.

Sem dúvida que é importante
viver cada momento sem medo
com intensidade
até porque é possível
- muito provável
que ele não volte.

 

SER IGUAL

Por Cissa de Oliveira

Vai daí que quem começa um texto com um "vai daí" ou não é muito certo da cachola ou está num bar com um copinho na mão. Pode ser que seja um poeta, e cansado, que metáfora, metáfora também cansa. Vai daí que, vai ver, é por isso que os poetas são também romancistas. O romance seria o "tapete", não onde ele esconde a sujeirinha não digerível da metáfora, mas o tapete onde ele deita e rola.
Eu deito e rolo, e você? Ah! não...
Decididamente, nós somos muito diferentes! O tapete é como uma cama fofa de vogais, sabia não? Eu adoro as vogais! Acho que elas têm uma macieza que as consoantes estão longe de oferecer. Consoante é boa para fazer o ladrilho da casa. Com as vogais, a gente faz as cortinas, os bordados, o colchão, as almofadas, as telas, as aquarelas, os papéis, enfim, os poemas. Mas não nos esqueçamos dos intermediários, você me entende: coisas onde entrariam ambas, vogais e consoantes. Os espelhos, as louças, os móveis.
- E a maionese? Espera aí, minha amiga, eu não disse que existem somente vogais e consoantes! Ah, essas mentes ocidentais!
Vai daí que: - Garçom, um "saquê", please!

 

VIGÍLIA DA ALMA

Cassiane Schmidt (Gaspar-SC)

Espreita-me ao longe uma sombra chamada tristeza,
Convida-me, insiste que eu coma em sua mesa.
Quer meu pranto levar para suas correntezas.

Espreita-me ao longe um vulto chamado solidão,
Convida-me, insiste que eu pegue em suas mãos.
Quer minha alma prender na escuridão.

Avisto ao longe uma luz chamada alegria,
Convida-me, insiste que eu prove de sua magia.
Quer fazer do meu sorriso sua moradia.

Avisto ao longe um velho senhor,
Convida-me a ser novamente criança.
Pergunto: quem és tu que não rimas em meu poema?
Responde-me: sou o amor.
Amor,
Como prova de minha alegria
Dar-te-ei meu coração
Para que juntos, tu e eu,
Possamos compor uma nova oração.

 

 

PROJETOS PARA 2011

Por Mary Bastian

"Este ano, quero paz no meu coração.
Quem quiser ser meu amigo
Que me dê a mão."
Há alguns anos venho lutando contra o destino, contra as peças que me pregou, magoada com as perdas. As amigas antigas ficaram longe, meus pontos de referência também e não soube conquistar novos amigos nem achar uma nova referência, apesar do amor que me envolve com os meus.
Mas... no finzinho de 2010, fiz um lindo pacote com todo o passado recente e com aquele que deixei lá longe, enfeitei como se fosse um presente e guardei no fundo de uma gaveta secreta, no fundo de um armário secreto, num quarto sem portas nem janelas.
E senti um alívio, uma tranquilidade há muito perdidos, então fiz o que não faço há muito tempo: planejei o ano que chega. Sempre fiz isto. Listava na agenda meus propósitos pro ano que começava e os perseguia e lutava por eles. Quando alcançava algum, me sentia vitoriosa. Os que não conseguia, tocava pra mais adiante, esperançosa. Sempre funcionou. Eu tinha objetividade e vontade.
Agora, meu planejamento para 2011 será não planejar nada. Vou deixar as coisas acontecerem na medida em que apareçam, sem ansiedade, sem tentar ajeitá-las de meu jeito. Vou deixar a vida me levar sem procurar ser mais esperta que o tempo, ou modificar o destino.
Sempre achei que o destino a gente faz, mas minha mãe dizia que ele a Deus pertence.
Neste ano vou estar aqui, com paz no meu coração, com as mãos estendidas e não tentando entender as coisas para ter paz.
E aquele pacote de presente, todo enfeitado, um dia, quando estiver preparada, pego de volta, queimo sem abrir, e espalho as cinzas ao vento.
Acho que será uma boa. Um bom 2011 para todos nós.

 

 

CONVITE


Apolônia Gastaldi


Entra comigo
No reino da ternura

Quero desvendar
O ser

Sou um evangélio
De loucuras
Inteiro
Feito de ingênuas
Criações

Um delírio exuberante
De utopias
Marcado de sonhos
Ilusões

Não vivo
Vibro

Vibro como se a vida
Fosse imensa
Colossal eternidade
Um universo de venturas
Ingênuas
Loucuras.

.

 

SÍLVIO JOSÉ

Por Urda Alice Klueger

Tenho o privilégio de ser vizinha de Sílvio José há quase ano e meio, o que significa que o conheci muito menino - atualmente, com dez anos, esticou um bocado, está ficando com jeito de mocinho e, além de ser bom aluno na escola, recém fez sua primeira comunhão com a solenidade e a seriedade de um pequeno noivo.
Não sei muito do seu passado, mas imagino que um dia sua mãe o recebeu da Cegonha como o grande prêmio da vida dela, e que cuidou daquele bebezinho e do menino que veio depois com tal desvelo e carinho que não havia como ele não se tornar o menino educado, prestativo e gentil que acabei conhecendo há menos de ano e meio, pois sempre ele foi assim comigo e com meu cachorro Atahualpa, desde que nos mudamos para a nossa nova casinha que hoje é rosa e branca e onde somos tão felizes!
Temos, acima, uma pequena biografia de um menino bastante comprido e alto para a sua idade, tendo já no rosto e no corpo as marcas certas do moço bonito que vai ser, e sempre é um prazer estar com ele, mas há algo nele que o diferencia dos outros meninos que conheço, e é sobre tal coisa que quero falar.
Como menino normal do seu tempo, Sílvio José tem passado muitas e muitas horas da sua infância brincando com videogame e com outros jogos assemelhados.
- E com que brincas? -perguntei-lhe, curiosa.
Ele brincava com lutas de monstros, pelo jeito as suas preferidas.
- E como foi que aprendeste espanhol?
Ele me explicou que havia diversas probabilidades de línguas para escolher, quando se abria os jogos com que brincava. Menino alfabetizado e morador do Brasil, a lógica é que escolhesse a língua materna, a portuguesa, este português que é língua de Camões e de Saramago e que tem palavras únicas no mundo sobre as nuances de determinados sentimentos. Uma lógica de pernas mais fracas nos diria que talvez escolhesse as línguas ancestrais, as que seus antepassados trouxeram um dia da Alemanha e da Itália - mas não, Sílvio José estava mais conectado ao seu tempo. Mesmo sem saber nada destas coisas de Mercosul e de outras necessidades futuras, ele firmemente optou pelo espanhol, e fiquei admiradíssima quando o vi dirigir-se a mim pela primeira vez com expressões novas:
- Hola, como estas? - no mais puro sotaque da Espanha. Embatuquei - numa cidade como a nossa, onde as pessoas ainda marcam passo nas línguas dos imigrantes e na do dominador decadente, era estranhíssimo ver aquele menino falar com tal desembaraço a utilíssima língua espanhola que tão importante será nestes tempos que já começaram, o tempo da integração da América dita Latina.
- Como aprendeste esta língua? - quis saber.
- Jogando videogame! - explicou-me com candura
- Mas sozinho?
- Não, com os jogos de monstros!
Claro está que ele ainda está longe de poder ser um professor do Instituto Miguel de Cervantes, mas Sílvio José está falando o mais legítimo portunhol, ainda misturando vocabulários, mas com noções de gramática, excelente entonação, conhecimento de expressões e até de gíria. E tudo isto aprendeu com os monstros do seu videogame, sem nenhuma pessoa a lhe dar nenhuma aulinha. É ou não é uma pessoa especial esse meu pequeno vizinho? Tento imaginar onde será o limite do futuro de um menino assim! Haverá limite? E ainda há quem diga que as crianças não gostam de aprender!

 

MAIS UM PASSO

Else Sant´Anna Brum
(Joinville-SC)

Caminha, vai,
dá mais um passo,
mais um, mais um...
Todas as grandes coisas
Começam pequeninas.
Toda grande jornada
começa com um passo.
Redime o pensamento de fraqueza,
Deus te guiará.
Não olhes para trás,
nem pares no caminho.
Vês lá no fim da estrada
aquele arbusto pequenino?
Não é arbusto, não,
é a árvore mais alta que encontrárás
em toda a caminhada;
é que estás longe ainda.
Dá mais um passo, mais um...
Senta-te à sombra dela e te dirá:
-Eu nasci de uma simples sementinha!

 

 

VARAL DO BRASIL EM LIVRO


A revista literária Varal do Brasil não é uma revista brasileira. Ela é publicada na Suiça, por uma brasileira lá radicada, Jacqueline Aisenman. Mas a literatura publicada na revista é de escritores brasileiros, como o nome indica. Como ela mesma diz, Varal do Brasil é uma revista de literatura sem frescuras, é um espaço para aqueles que escrevem e leem.
Já é popular no Brasil, muitos novos escritores (ou não) encontraram espaço para a sua produção lá e assim mais e mais autores vão se unindo a esse grupo liderado por Jacqueline.
A revista é virtual - o site para acessar é www.varaldobrasil.ch -, mas uma antologia impressa está sendo editada e será lançada aqui no Brasil, em Florianópolis, no dia 13 de maio, 19h30m na Livraria Catarinense do Shopping Beira-Mar.
Vários autores de vários lugares do Brasil estão presentes no livro e será uma bela festa literária de confraternização e de divulgação do trabalho realizado no Varal do Brasil.
Estaremos lá, como autor convidado da antologia. Fátima de Laguna, uma das artífices da coletânea, também. O Grupo Literário A ILHA e o Grupo de Escritores Lagunenses Carrossel das Letras apóia essa iniciativa em prol da literatura catarinense e brasileira.

 

 

MARES

Aracely Braz
(São Francisco do Sul)

No mar azul azul eu vou
Cantarolando meus fados,
Que me fazem sonhar
E revirar engavetados.

No mar escuro,
A brisa dança nas águas,
Reflete a sombra fagueira
Na luz da lua faceira.

No mar sereno,
Vejo as fadas dançarinas,
Que giram desordenadas
Ao vento que sopra ameno.

No mar sorriso, sempre no mar,
Que conquista os filhos seus,
Infinito, majestoso,
Criado por obra de Deus.

 

 

NOVO LIVRO


A escritora Mary Bastian, cronista do jornal A Notícia e autora de diversos livros infanto-juvenis, está com seu novo e belíssimo livro “O Rio que ficou triste” para ser lançado.
Trata-se de uma apresentação muito bem cuidada, com lindas ilustruações, que merece chegar ao leitor.

 

NATUREZA EM EXTINÇÃO

Erna Pidner
(Minas Gerais)

Além do asfalto
Árvores frondosas
Matas espessas;
Além dos montes
Com suas vertentes
Um riacho cristalino
Mata a sede de animais
A pastarem livremente
Sem temer tiro certeiro
A magoá-los duramente
No alento derradeiro!
Brisa fresca da manhã
Isenta de poluição;
Pássaros preservados
A trinar sua canção.
Num futuro não distante
Tudo isso, com certeza,
Só nos será dado ver
No Museu da Natureza!

 

 

MONÓLOGO INTERIOR

Jacqueline Aisenman - Suiça

Não, eu não creio mais.
Apenas faço parte do contexto
Onde muitos estão também.
Não, eu não quero saber
Dos significados restantes
Que infinitamente invadem
As memórias.
Não, não adianta olhar com
insistência
E tentar ver a criança.
Já não sou.
Não é evidente?
Por gestos, por lembranças
ou pela imagem real que
se mostra...
Não, há disfarces
Esta sou eu e é quase
O mesmo eu que esteve em berços
Caiu de árvores
Trocou carinhos escondidos...
O mesmo ser que gerou outro ser
Que se inundou de amor
Que incendiou a vida em lutas.
Não, eu não preciso mais
falar
O silêncio de quem é só
Fala por si.

 

A NOVA LITERATURA CATARINENSE

Saiu uma nova edição do livro
"A Nova Literatura Catarinense",
ampliada e atualizada, pela Editora Clube de Autores.
Biografia, bibliografia, fortuna crítica e trechos da obra
de vários dos novos escritores da Santa e bela Catarina.
Pedidos podem ser feitos pela loja virtual no site da editora,
no endereço:
Http://www.clube deautores.com.br

 

 

A ILHA

Márcia Vilarinho

Além muito além de mim
De você
De nós
Nas galáxias perdidas
Da humana visão
Existe uma ilha de vida
Em espectro colorido
Em amplidão
Onde a linguagem
É expressa
Somente com a emoção
A alma escreve
O coração dita
O sol energiza o texto
A lua lhe coloca amplidão
Com estrelas em conspiração
O mar enleva e leva
Flores e sementes
Na fragrância da paixão
Lá amor é tão real
Verdadeiro e leal
Que o sonho
Não deixa crer
Porque o sonho
E a realidade
Andam juntos
Num só ser
Essa é a ilha Poeta
Onde busco inspiração

 

 

PROJETO DOSE DE LEITURA EM HOSPITAL

A partir de janeiro 2011 se iniciou na Fundação Hospitalar José Athanázio, de Campos Novos, em Santa Catarina, o projeto literário “Dose de Leitura”. No projeto, os pacientes e visitantes dos hospitais que participam das atividades, têm livros à sua disposição durante a sua permanência nas unidades de saúde. O objetivo é incentivar a leitura, e levar aos pacientes uma forma de entretenimento, com uma leitura fácil, rápida e prazerosa.

 

 

FLAGRANTES DE FESTA

Harry Wiese (Ibirama)

Os gritos na madrugada
são os protagonistas do meu cansaço
e as marcas do desalento.
Guitarras e saxofones vibram sonoros, no palco
e a bateria conduz a fantástica feitiçaria num acorde rock-total.
Os rostos dos homens e mulheres
registram fome de amar.
Os martírios são velhos e os anseios vibrantes,
as faces estão em brasa
na louca transfiguração.
Não suplico a glória,
nem o extremo de um instante fatal.
Há uma mulher na dança,
louca, na quadra, rebola e rola
a anciã.
Não vê tempo, nem os homens.
Oh! Solidão, eu te manjo.
Há também um homem
sentado num canto do salão,
curvado de dorso,
marcas do tempo.
Fita a escuridão
e ama mulheres que não existem.
O homem que maldiz o tempo veloz
e a mulher que dança a sós
sufocam meu melancólico grito
em tempo de absoluto regime de tempo.

 

 

CRÔNICAS PELO BRASIL E PELO MUNDO

Leia as crônicas de Luiz Carlos Amorim em jornais como A Notícia, de Joinville,Diarinho, de Itajaí, São José em Foco, O Correio do Povo, Correio da Manhã, de Ponta Grossa,Roraima em Foco, Repórter Diário, de São Paulo, Diário do Iguaçu, de Chapecó, Correio Lageano, de Lages, Jornal União, de Londrina, Norte de Minas, O Dia, O Riosulense, A Tribuna, Feira Hoje, da Bahia, Diário de Cuiabá, Correio da Tarde, de Natal, Folha de Pernambuco, Gazeta de Sergipe, Folha da Bahia, Estado Acre, Diário de Natal, Correio Bragantino, O Dia-Piauí, Notisul, O Povo de Fortaleza, Jornal Graqnde Bahia, O Barriga Verde, A Tribuna de Campo Grande, A Tribuna de Criciuma, Folha do Espírito Santo, Notícias do Dia, Jornal Mato Grosso Norte, O Estado Acre, Correio do Vale, ANotícia do Vale, Correio de Uberlândia, Diário da Serra, O Jornal de Alagoas, O Liberal, de Cabo Verdee outros, pelo Brasil e pelo mundo.
Blog CRÔNICA DO DIA: Http://luizcarlosamorim.blogspot.com

 

 

SOBRE GEOGRAFIAS

Clotilde Zingali
(Joinville)

hoje eu país
dentro, sertão

sou feito mandacuru
ou rio perene que altera a paisagem agreste

e sertão adentro
- gerais -
quinze léguas de solidão

feito vereda
sou nascente que forma caligrafias
e serpenteia as gerais

sempre sertão
espaço inventado
por pura necessidade

 

 

INDAGAÇÃO

Luiz Carlos Amorim
(Florianópolis)

Em que esquina
te perdeste,
admirável mundo velho?
E o homem,
filho da terra,
irmão gêmeo da natureza,
em que sonho se perdeu?


EXPEDIENTE

Suplemento Literário A ILHA
Edição Nº 116 - MARÇO/2011 - Ano 30
Edições A ILHA - Grupo Literário A ILHA
End. para Correspondência:
lc.amorim@ig.com.br - prosapoesiaecia@yahoo.com.br


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