SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA

Revista do Grupo Literário A ILHA

Edição 115 - Dezembro/2010

O GRUPO LITERÁRIO A ILHA E O NATAL

É dezembro e o Grupo Literário A ILHA, através da sua revista, o Suplemento Literário a ILHA e através do seu portal na Internet, PROSA, POESIA & CIA., em http://www.prosapoesiaecia.xpg.com.br, quer desejar a seus leitores e integrantes um Natal verdadeiro, por inteiro e que o ano de 2011 seja o melhor de nossas vidas.
Esta edição do Suplemento privilegia, mais uma vez, a data maior que temos para comemorar, o Natal, o nascimento do Menino que vem, todo ano, nos nossos dezembros, para mostrar o caminho por este mundo de Deus: contos, poemas e crônicas de Natal e mais informação literária e cultural.
Completamos, neste ano de 2010 que ora se finda, trinta anos de atividades. Comemoramos com o lançamento da Coleção Letra Viva, publicando os quatro primeiros volumes de crônicas. Fomos a Joinville, fazer uma noite de autógrafo com os autores dos primeiros quatro volumes e fizemos o lançamento também em Florianópolis. Novos volumes virão e iremos a outras cidades do Estado.
Nesta edição, matéria sobre o lançamento em Joinville, quando reunimos uma parte dos escritores do Grupo Literário A ILHA, voltando às origens.

O Editor

 

 

CHEGOU O NATAL

Luiz Carlos Amorim

 

Natal chegou.
Muitas luzes se acenderam,
Muitos enfeites surgiram,
Muita coisa se comprou.
Alguém lembrou do Menino
Razão dos nossos Natais?
Natal chegou.
Mas parece que mudou.
Só lembramos de presentes,
Enfeites e muitas luzes,
Só pensamos em comprar.
E o Menino que nasce,
Todo dezembro, há milênios,
Ninguém vai lhe comemorar
De verdade o aniversário?
Natal chegou.
O Menino chegou.
E traz de presente
Serenidade, amor,
Justiça e dignidade.
O Menino traz perdão,
Traz carinho e compreensão
Para toda criatura.
E nós não aceitamos
Esses tão ricos presentes.
Não é hora de mudar?

 

 

NATAL DE JESUS

Urda Alice Klueger
(Blumenau-SC)

Sei que alguém vai dizer que Natal, hoje, é comercial, mas isso não passa de uma bobagem: pode ser comercial aquele frêmito na alma que sentimos diante das luzes anormalmente acesas, diante das canções natalinas? Nem todas as canções falam de Jesus de Nazaré - Papai Noel, hoje, é seu mestre de cerimônias - mas existe algo mais cristão do que querer dar a alegria e o amor ao próximo? E, nunca, como no Natal, estamos propensos a isto, quando pensamos em presentinhos que farão sorrir, quando pensamos em mensagens lindas que mandamos por cartões, desejando as melhores coisas para os amigos, quando nos reunimos para reafirmar o nosso amor e a nossa solidariedade a quem vive conosco. E fazemos isto justamente em dezembro, justamente no Natal, justamente no aniversário terrestre daquele Jesus de Nazaré que um dia nasceu quase incógnito durante o governo do Imperador Tibério - teria sido um nascimento totalmente incógnito, não fossem os anjos do céu que não se contiveram e vieram a este planeta cantar glórias a Deus nos céus e paz na terra aos homens de boa vontade.
(...) Não é fácil conseguir amar como amou o Filho de Deus. Mas podemos tentar. Vamos fazê-lo daqui para a frente?

 

COMO FALAR DE NATAL?

Erna Pidner
(Ipatinga-MG)

Não sei mais como fazer
um poema de Natal!
Todo ano a mesma coisa:
sempre tudo tão igual...

Falar de Papai Noel
para quê, se nem criança
acredita em su´existência,
nem põe nele confiança...

De espírito natalino
daria pra comentar
se antenas do coração
o pudessem captar.

Discorrer sobre o presságio
muito tempo levaria.
A gente de nosso tempo
vive em grande correria...

Árvore de Natal
teve o seu tempo de glória;
transformá-la em poesia,
isso já é outra história!
Tantas luzes a iluminar...

A rua, a praça, a cidade,
vem se tornando rotina;
já não é mais novidade...
Busco a essência do Natal;
Inspiração genial!

 

 

NATAL

Conto de Apolônia Gastaldi

O cheiro de Natal parecia vir com o vento. Eu preparava o anoitecer. A casa imensa rodeada de árvores, o gramado, os lírios amarelos enfeitando toda a frente e mais um Natal . Não era o primeiro que eu passava só. Só, naquela casa imensa, branca de janelas azuis. Os meus cães boxes - quatro - corriam pelo gramado ao redor da casa, brincando. Depois cada um ia para seu lugar ¨dormir¨, vigiando tudo. Eram uma parte de minha segurança ali naquele lugar distante de tudo e de todos. Ali no Morro Pelado, na BR 470. O asfalto passando na frente mostrava um trânsito lentamente diminuindo.
Era Natal e eu estava só. Escurecia. Relia os cartões que tinha recebido de meus amigos. No computador, mais mensagens. Aquilo muito significava. Aquelas mensagens vindas de longe e carregadas de afeição e lembranças. Ah, como é bom ter amigos! Um velho disco desfiava a música já tão conhecida de outros Natais. A caixa com o panetone nem seria aberta. Olhei pela janela e, lá fora, tudo deserto. Ninguém. E eu sabia. Nem sei por que olhava para fora.
Minha cabeça lembrava as vozes de meus irmãos, de meus pais e de meus filhos em outros e velhos Natais. Aquele pião de metal colorido que meu irmão Antônio ganhara e que rodava misturando as cores, roncava em minha lembrança. Os doces pintados, o peru assado no capricho e o pinheiro enfeitado. Tudo na lembrança. Porém eu estaria só, naquele Natal e em muitos outros. Dormi sonhando com os Natais de menina em minha casa paterna. Dia seguinte, bem cedo, iniciei minhas tarefas . Ao Passar pela frente da casa, surpreendeu-me um laço de fita vermelha amarrado em meu portão. Até hoje não sei quem me enviou aquela fita, aquele cartãzinho: ¨eu também passei meu Natal só.¨

 

ESTRELA DE BELÉM

Else Sant´Anna Brum


Estrela de Belém
Quão linda é a tua história
Marcaste o nascimento
Do eterno Rei da Glória!

Estrela de Belém
Tua luz é poesia,
Encheste de beleza
A pobre estrebaria!

Estrela de Belém
Repleta de esplendores,
Levaste a grande nova
Aos magos e aos pastores!

Estrela de Belém
Teu brilho é sem igual.
Estrela mensageira
De Cristo e seu Natal!

Estrela de Belém
Com celeste clarão,
Brilha neste Natal
Em cada coração!

 

 

QUERO SER PAPAI NOEL

Conto de Luiz Carlos Amorim

Bruno sempre fora fascinado pela imagem de Papai Noel, desde muito pequeno. O carisma e o mistério em torno daquela personagem que o fazia esperar ansioso o Natal, quando criança, não o abandonara jamais, mesmo depois de adulto.
O final de ano era a época mais feliz para ele, pois tentava incutir nos filhos e sobrinhos e depois nos netos o amor pelo Velhinho de barbas brancas e roupa vermelha, que vinha em todos os Natais para trazer algum presente, por mais humilde que fosse. Um Velhinho bom que anunciava o nascimento de um Menino que poderia salvar o mundo, se deixássemos.
Até a meia-idade, era muito magro. Era louco por uma possibilidade de se vestir de Papai Noel, representar o Velhinho nos Natais que eram sempre felizes se ele, Bruno, estivesse por perto.
- Não vou ser um Papai Noel convincente, magro como sou, vou ficar uma figura sofrível com barba postiça e muito enchimento - lamentava, triste.
Então, quando os cabelos começaram a rarear e a ficarem brancos, decidiu deixar a barba crescer. Já não tinha mais aquele corpo delgado, a idade lhe trouxera uma barriguinha e achava que finalmente ficaria um Papai Noel decente.
Naquele ano, quando já passava dos sessenta natais, ele realizaria seu sonho: seria o Papai Noel da família.
- Estamos ainda no inverno, até dezembro minha barba já terá crescido o suficiente.
- Mas a barba de Papai Noel tem que ser bem comprida - dizia sua esposa - será que ela crescerá o bastante?
- Minha barba cresce rápido - respondeu ele - bem mais rápido do que o cabelo.
Quando novembro chegou, a barba de Bruno não estava tão comprida como ele queria que estivesse, mas estava dando a ele um ar de Papai Noel: quase toda branca, muito serrada, era o orgulho dele.
Paralela a sua felicidade por estar se preparando para encarnar o Velhinho do Natal, umas dores foram aparecendo e foram se acentuando, mas o médico dizia que não era nada, coisa corriqueira, era apenas a idade avançando: artrites, artroses, essas coisas.
Mas, quando no final de novembro, ele começou a emagrecer muito rápido, ficou preocupado:
- Como vou ser um bom Papai Noel, se ficar assim, magro com palito? - reclamava, mais do que das dores.
Infelizmente a preocupação dele em não se tornar mais um Papai Noel magrelo e sem graça era o de menos. Os médicos descobriram que Bruno tinha câncer e - pior - já estava em estado adiantado.
Os parentes e os amigos vinham vê-lo e ao mesmo tempo em que ficava feliz por rever pessoas queridas que há já algum tempo não encontrava, ficava triste porque poderia ser a última. Até “seu” Adão, grande amigo que ficara cego em decorrência de um acidente, viera visitá-lo.
Definhava e o sofrimento aumentava com os tratamentos que lhe eram ministrados, como quimioterapia e radioterapia. Dezembro o pegou já confinado à cama e não poderia, de forma alguma, ser Papai Noel naquele Natal.
Foi o Natal mais triste da vida de Bruno. A vida lhe escapando por entre os dedos justamente quando iria ter o mais lindo Natal que poderia existir.
Dois dias depois do Natal, os médicos avisaram à família que Bruno poderia ir-se a qualquer momento. Ele estava muito abatido, desfigurado, até. Sabia que sua hora estava chegando.
Chamou seu filho mais velho e falando com dificuldade, fez seu último pedido:
- Júlio, lembra de Adão, que esteve aqui antes do Natal, me visitando?
- Sim, lembro, pai. O seu amigo que ficou cego.
- Pois é. Quero doar minhas córneas para ele. É meu presente de Natal, ainda que atrasado.
E assim foi. Antes que dezembro terminasse, Bruno foi-se. Mas conseguiu ser o Papai Noel de Adão, mesmo que não estivesse redondo para vestir a roupa vermelha, que combinaria perfeitamente com a sua barba branca, então já bem comprida...

 

 

NATAL

Célia Biscaia Veiga

Se Jesus por acaso resolvesse
Descer à terra pra comemorar
O aniversário, arrepender-se-ia
Ao ver em que o Natal foi virar...

O consumismo é o único interesse.
O povo só quer saber de comprar...
Como se só o dinheiro é que valesse
E não valesse nada se doar.

Só em casos extremamente raros
Não se preocupam com presentes caros
E pensam só no aniversariante...

Quando a humanidade lembrará
O que é Natal e compreenderá
Que o amor, a paz são os presentes importantes?

 

 

A ÁRVORE DE NATAL

Mary Bastian

Hoje não vou escrever como de costume. Hoje, quero presentear amigas e amigos que conquistei, com uma lenda lá da minha terra, o Pampa Gaúcho. Espero que gostem e encontrem nela o espírito natalino que está no ar:
"Conta uma linda história, que após enfeitarem a árvore da Natal com bolas coloridas, fitas e velas, as crianças foram dormir. Foi então, que os animais da casa vieram vê-la.
- Que linda! - disse um ratinho.
- Fantástica! - respondeu o canário.
- Mas é espinhenta, reclamou o gato.
Com a limpeza que haviam feito na casa, as aranhas tinham ido parar no galpão, mesmo assim, estavam loucas para ver a árvore. Olharam para o céu e pediram ao Menino Jesus:
- Querido Jesus, todos já viram a árvore, menos nós. Dá um jeitinho!
Jesus, na sua imensa bondade, trouxe as aranhas do galpão e deixou-as na sala para verem tudo à vontade.
Quando elas foram embora, cheias do óh! e ah!, o Menino Jesus desceu para abençoar a árvore e .levou um grande susto. Os galhos da árvore e os presentes, por onde as aranhas andaram estavam cheios de teias, longos fios de seda que elas tecem.
Jesus pensou nos donos da casa e nas crianças que tinham trabalhado tanto, e achou que não iriam gostar nem um pouquinho daquilo, e falou: vou fazer alguma coisa. E tocou com seu dedinho mágico a árvore.
No mesmo instante, todos os fios se tornaram de prata e brilharam por toda parte , árvore, enfeites, presentes , tudo. Foi uma coisa muito linda.
No dia seguinte, dia de Natal, a família estava encantada, achavam que havia acontecido um milagre na sua sala. Desde este dia , as pessoas passaram a enfeitar as árvores de Natal com fios prateados, além dos enfeites tradicionais, para comemorar o milagre das aranhas e do Menino Jesus. "
Esperando ter alegrado seus corações , desejo um Feliz Natal a todos vocês.e suas famílias.

 

 

NATAL, SEMPRE NATAL

Aracely Braz (S.Fco. do Sul)

A estrela-guia anunciava
Que o Menino Deus nascia,
Sobre a palha iluminado
Pelo brilho dos olhos de Maria.

Os jacatirões eclodem
Enfeitando a natureza,
Comemorando a vida,
Enquanto os homens
Comemoram sem saber o quê.

O Natal é da criança.
Ela é ternura, pureza,
Semelhante ao Deus Menino,
Alheio às pompas, ao consumo.

Receptivos e solidários,
Vivamos a noite de luz
Com fé e com orações
Adotando o Menino Deus.

 

 

PÁGINAS DE UM DIARIO

Edltraud Zimmermann Fonseca

Estou no hospital triste e só!
Noite de Natal... chove placidamente .
As luzes da cidade de São Paulo, não perdem o seu esplendor, a sua magnitude. Tudo é triste... tudo é monótono. Penso ardentemente em meus pais e irmãs. Penso em minha tia Lolita, mãe do coração. Estou só, triste e desolada. Rodeada por estranhos que me demonstram extremo carinho e atenção .
Dr .Milan, meu médico, penalizado, com certeza, veio me ver e trouxe-me uma lembrancinha!Um gatinho preto de madeira, que guardarei eternamente.
Noite de Natal. Os corredores do grande hospital estão vazios,frios e tristes! Estou sentada no meu leito, 54, pensativa; ouço apenas o barulhinho da chuva que me acalma.
Ajudei outras pacientes a armar o presépio na capela do 12.º andar.
O Hospital entrou em férias coletivas, por isso poucos doentes, apenas o que não podem se locomover, por isso estão acamados. Apenas eu e Divina podemos andar!
Penso em casa e continuo profundamente infeliz.
- Papai Noel, traga-me um pouquinho de felicidade neste Natal onde longe dos amigos e família por certo serei esquecida.
Daqui a alguns minutos será Natal!
Estou no hospital...
Longe...
Triste e só .
- Papai Noel não me deixe mais ficar assim! Tenho apenas 20 anos!

Ano 2010: 75 anos!
Papai Noel me ouviu.
O casamento, os cinco filhos, meus seis netinhos, noras e genro, há muitos anos fizeram-me a mulher mais feliz do Planeta!

 

 

 

 

CANTA, POETA

Joel Rogério Furtado
(Araranguá)

Poeta, sempre cantando,
tudo, sempre ao teu redor,
estarás colaborando
na obra de um mundo melhor.

Tu nasceste com o dom
e cumpres o compromisso
neste momento tão bom,
de à tristeza dar sumiço.

Insista em cantar, poeta,
as cores do mundo, em volta,
essa dor, que como seta
do arco interior se solta.

madura a tua poesia,
para espalhar coisas belas
simples, sem hipocrisia,
como flores nas janelas.

 

 

EDITE E O MOÇO BONITO

Maria de Fátima Barreto Michels

Não sei dizer a origem do apelido pelo qual era chamada. Codinome imposto que ela odiava, mas a Pandorga andava sempre com um vestidinho de tecido bem fino sobre o corpo miúdo. Os ventos nordeste e de sul, sempre levantavam sua saia.

Impropérios eram ditos a todos quantos a importunavam, caso insistissem no apelido, o que era comum, nas suas viagens etílicas pela cidade, lugares onde na juventude fizera muitos favores, ao estilo de Maria, a de Magdala.

Um dia, ou melhor, uma noite, ela andava pelo cais do centro histórico, ali pelo Mercado Público e foi mirar-se nas águas. Teria incorporado Alfonsina? Ou seria Narciso? Quem sabe, tal qual Ismália, a Pandorga descobriu uma lua no mar e foi vê-la de perto, voando naquela leveza própria das pipas. Um peixe-rei encantou-se com a sua rabiola, saltou e vapt!

A miúda criatura afogava-se na lagoa Santo Antonio dos Anjos! Usando túnica e capucho de cor marrom, caminhando sobre as águas, aquele moço bonito, o Antônio Fernando, que pregava aos peixes, percebeu tudo. Justamente ele, interrompeu seu sermão e amparou a Pandorga em seus braços. Depressa a levou para uma nuvem bem alta, até que ela se refez.

Edite foi finalmente ter seu lugar de honra, naquela mesa. Lá, onde felizes são os convidados. E assim, tipo o jeito que Irene, a de Bandeira, chegando ao andar de cima, foi logo entrando e dizendo:

- Licença, meu santo!

“E São Pedro bonachão:”

- Entra, Edite!

“Você não precisa pedir licença”

 

DOBRAM OS SINOS

Márcia Vilarino

Dobram os sinos
E o som chega ao além
Diáfono e misturado
Ao pulsar dos corações
Em vibrações de elos

Nos campos santos
Flores misturam cores
Falam de amores
E plasmadas
São recolhidas no etéreo

E gigantesca ecoa a prece
Como se o o sol surgisse
Dentro de cada um de nós
E se esparramasse
Por todo o universo

E na pátria original
As fontes cantam o tempo
Entoando a eternidade
E o seres saúdam a vida
Certos de que não existe a morte

E singrando a densidade
Abraço na volatilidade
Todos aqueles
A quem tanto amo
E de quem tenho saudade

 

 

UM DIA DO LIVRO ESPECIAL

Por Luiz Carlos Amorim

Tivemos, no 29 de outubro, o Dia Nacional do Livro. Este ano, particularmente, temos o que comemorar, pois está acontecendo, nesses últimos meses, uma revolução significativa na confecção do livro, na sua apresentação e na maneira de lê-lo, também.
Os e-readers - leitores eletrônicos de livros digitais, deram o ar de sua graça e estão se popularizando. Além do Kindle, o pioneiro, que apareceu com uma nova versão, melhorada, surgiu este ano o I-pad, leitor eletrônico multimídia da Aplle, para esquentar o mercado, e os dois estão vendendo bem, guardadas as proporções, é claro, além de outros aparelhos similares que já estão no mercado.
Os e-books - livros eletrônicos ou digitais, que já existiam desde a década passada, mas não eram comercializados, deram um salto na oferta e já representam uma fatia, pequena, talvez, de venda no mercado editorial. As editoras, pelo mundo afora - e também no Brasil - algumas das grandes casas publicadoras, estão aderindo ao e-book, e já existe até uma associação delas nesse sentido para se organizarem na oferta de livros na versão digital. Uma boa parte delas já oferece livros eletrônicos, em seus sites, e algumas pensam seriamente em lançar senão todos, mas parte de seus títulos no novo formato.
O livro de papel, tradicional, no entanto, continua com toda força e mantém a preferência nos gosto dos leitores. Também na confecção do livro impresso, está havendo uma revolução: foi inventado e está sendo produzido já em escala industrial o papel de plástico, feito a partir de lixo reciclável daquele material. O que diminui o desmatamento e favorece, portanto, o meio ambiente, tão combalido e necessitando de maiores cuidados.
Então, podemos comemorar: temos um novo formato de livro, o eletrônico, que pode ser lido no computador, no celular e no e-reader, o leitor eletrônico, principalmente. Alguns destes aparelhos, aliás, lêem jornais e revistas, além de livros, e rodam filmes, conectam-se a internet, rodam jogos e assim por diante. Isso, sem falar que o áudio-book também já tem a sua fatia no mercado.
Em contrapartida, o livro impresso ganha força, com um papel que não rasga, é lavável e gasta menos tinta para ser impresso.
Vida longa ao livro, portanto.

 

 

A BUSCA

Cassiane Schmidt

- Onde encontro a poesia?
Ousou um dia,
O aspirante poeta aos céus perguntar.

Acudiu-lhe uma voz:
- A poesia está onde teu coração
Puder alcançar!


Meu coração é tão pequeno – desfez o poeta -
Asas, ele não possui!
Como poderei um dia,
A poesia encontrar?

A voz respondeu:

- Voa sem medo pelas planícies do teu coração
Amputa os pés se preciso for.
Sede suave como a brisa,
Inocente como a flor

E, assim, quando menos esperar
Em tuas mãos nascerão asas,
Teus dedos aspergirão poesia.

Mas não te enganes, aspirante poeta

A poesia é feita de vazios.
Nasce quando dorme,
Morre quando desperta!
Nunca vai, nunca fica!
Deixa sempre atras de si
Uma porta aberta...

 

 

ONDE ENCONTRAR

O livro “Borboletas nos Jacatirões”, de Luiz C. Amorim e todos os livros da Hemisfério Sul estão à venda nas seguintes livrarias: Saraiva (inclusive virtual), Curitiba e Catarinense. Central Livros e Rio Centro (Rio do Sul), Convivência, Fapeu, Livros e Livros, Catarainense, Saraiva (Florianópolis), Aladim e Casa Aberta (tajaí), Acadêmica, Alemã, Papelaria Danúbio, Blulivros (Blumenau), Diocesana (Lages), LDV (Indaial), Papelaria Mosimann (Brusque), Cultural (São Leopoldo-RS), Bauhaus (Balneário Camboriu), Midas e Catarinense (Joinville), Nova Objetiva (S. Miguel do Oeste), Origem (Timbó), Grafipel (Jaraguá do Sul), Recanto do Livro (Videira), Refopa Joli (Pomerode), Fátima Art. Esp. (Criciúma), Ponto do Livro (Cruz Alta-RS). Pedidos também para o e-mail hemisferiosul@san.psi.br

 

SARAMAGO

"A imortalidade não existe"
(José Saramago)

Teresinka Pereira (USA)

Tua palavra resiste
à morte de tuas veias
e este absurdo grito
a que nos condena o tempo.

Nas letras, todos os caminhos
brotam da angústia
de nossa vida
e das distantes ilusões
de imortalidade.

Tua obra agora se impõe
na eternidade que nos resta
e no ambicionado alvo
de que o belo permaneça.

 

 

LANÇAMENTO DA COLEÇÃO LETRA VIVA EM JOINVILLE

Nas fotos, uma geral da Biblioteca Rolf Colin e os escritores Mary Bastian, Luiz C. Amorim e Célia B. Veiga

O Grupo Literário A ILHA esteve em Joinville, lançando a coleção Letra Viva, publicada em comemoração aos seus 30 anos de existência. Foi em setembro, na Biblioteca Rolf Colin, onde nos receberam muito bem, o que agradecemos.
O auditório montado na sala de leitura da biblioteca municipal ficou lotado de convidados. Depois de nos apresentarmos e de falarmos dos trinta anos de literatura do Grupo A ILHA, a literatura que estávamos ali para oferecer começou a sair dos quatro volumes da Coleção Letra Viva e tomou forma na voz e na interpretação de um grupo de atores.
Primeiro foi a crônica da Mary Bastian, "Há braços", que começou a ser lida para o público. E quando chega a passagem em que a autora via jovens na praça com cartazes, dizendo que o abraço era de graça, três ou quatro atores se levantaram no meio do público e começaram a abraçar todas as pessoas da plateia. Foi uma performance original,muito bonita emocionante.
Depois foi a vez do texto de Célia B.Veiga, a organizadora da festa, “Não é Comigo”, sobre o atendimento de Call Centers, que deixam a gente esperando horas e horas. Foi muito engraçado uma pessoa ao telefone tentando se fazer ouvir, mas apenas ouvindo “vamos transferir a sua ligação”, “Não desligue que a sua ligação é muito importante para nós”, “Este assunto não é comigo”. Bem como acontece na vida real.
A minha crônica apresentada foi “Jacatirões no Jardim”. E a dramatização foi linda, pois enquanto ela era lida, algumas pessoas montaram uma árvore e foram distribuídas para o público flores de papel crepon brancas, rosas e lilases, representando as flores de jacatirão e todos foram convidados a colar essas flores coloridas no pé de jacatirão. Assim, quando terminou a leitura, a árvore estava florida.
Ouve declamação de poesia, também, e de um poema de Quintana, embutido na minha crônica. Foi uma noite maravilhosa, com um público fantástico que prestigiou o retorno do Grupo A ILHA a Joinville.
(Luiz C. Amorim)

 

CÂNTICO DO RIO

Harry Wiese
(Ibirama-SC)

Vejo o rio que rola a água
sobre as pedras
e nem se dá conta
(extrema fatalidade)
que divide a cidade.


Sou o poeta da cidade dividida
e não consigo edificar
a ponte requerida.


Vejo o rio que rola como
ondas de (a)mar
e não há receptores bastantes
que possam
entender meus poemas.


Vejo o rio que rola a água
sobre as pedras
e nem se dá conta
(extrema desgraça)
que divide os homens.


Vejo os homens que veem o rio
E só veem o rio.
O rio divide a cidade, os homens
e os poemas.

 

CRÔNICAS PELO BRASIL


Leia as crônicas de Luiz Carlos Amorim em jornais como A Notícia,Diarinho, São José em Foco, O Correio do Povo, Correio da Manhã,Roraima em Foco, Repórter Diário, Diário do Iguaçu, Correio Lageano, Jornal União, Norte de Minas, O Dia, O Riosulense, A Tribuna, Feira Hoje, Diário de Cuiabá, Correio da Tarde, Folha de Pernambuco, Gazeta de Sergipe, Folha da Bahia, Estado Acre, Diário de Natal, Correio Bragantino, O Dia-Piauí, Notisul, O Povo de Fortaleza, e outros.

Leia, também, no Blog CRÔNICA DO DIA, em Http://luizcarlosamorim.blogspot.com

 

DIGAM-LHES

Nuno Rebocho (Cabo Verde)


Não sei onde estão as árvores: os montados não os vejo
– os chaparros dormem esquecidos. Pergunto pela paisagem
e só nódoas e abandonos falam e enriquecem o país fiscal.
Não sei onde estão os homens que fugiram da paisagem
nem como se esqueceram de si mesmos: nem sombras há
nem cantes nem papoilas nem protestos - a pátria foi-se
esmagada pela rapina bancária. E nem há lágrimas.
Onde estão os homens que perderam a paisagem? E onde
a paisagem que perdeu os homens? Que os silêncios gritem
desesperados e animem os gados para dentro das cidades
e as moscas varram os cemitérios e os ministérios
exumando portarias: descubram os homens!
Digam-lhes que as paisagens esperam e as árvores
choram abandonos. Digam-lhes que as modorras têm donos,
que têm donos a miséria e a cobardia. Digam-lhes
que lá fora há ventos e há chuva e há vida. Digam-lhes
que a morte mata mas os rios teimam em navegar. Digam-lhes.

 

A TRANSFORMA OU O NATAL DE SEU BERILO

Conto de Enéas Athanázio

Aninhada num grande vale, a Vila vivia em permanente modorra. As ruas em cruz se encontravam no pátio da estação, onde o terreno descambava, depois dos trilhos, no mar de coxilhas que se perdia no horizonte até se juntar com o céu. O silêncio pesado dominava, quebrado às vezes pela cantiga de um galo, o acôo de algum guapeca ou a risada do Natão proseando inconveniências com outros vadios na plataforma da estação.
Só uma vez por dia a Vila se animava, mesmo assim devagar, que a pressa não estava no seu costume. Isso acontecia pelas dez horas, quando o trem misto do norte se anunciava na Serra da Pirambeira, martelando com força os trilhos, e a locomotiva furava os ares com a choradeira de seu apito sextavado. Todos largavam o serviço e rumavam para a estação, bem a tempo de apreciar a entrada triunfal do trem no quadro da plataforma, entre bufos e nuvens de vapor, rangidos de freio e o badalar do sino preso na caldeira. Seguiam-se momentos de atropelo, com gente falando alto, encomendas subindo e descendo, passageiros espiando pelas janelas e curiosos acompanhando o movimento. Uns poucos aproveitavam para comprar jornais e revistas do jornaleiro do trem, reatando os laços com o mundo. Mas o tempo era curto e seu Baby, o agente, não tardava a "dar o pode", liberando a composição. Entre novos guinchos e bufos, ela arrancava devagar e ganhava velocidade, desaparecendo no Corte do Agrião, seguida pelos olhares tristonhos dos que ficavam. A Vila recaía na mesmice e cada um voltava sem pressa às suas ocupações.
Sede da maior madeireira da região, com serraria montada na Campina, ficavam na Vila os depósitos e o escritório da Companhia Americana, instalado num casarão verde, cercado de largas áreas, na principal esquina do lugar. Ali morava e trabalhava seu Berilo, o Administrador, carioca exilado naquela biboca arredia de civilização, como ele não se fartava de repetir. Dono de todos os poderes, mandava e desmandava, sempre rude no trato e pronto a passar descomposturas em qualquer lugar, sem perguntar a quem, num sotaque carregado de chiados e ss.
Todas as tardes, depois do expediente, sentava-se na área fronteira, espraiando o olhar pela Vila e recebendo cumprimentos temerosos dos escassos passantes. Fumando cigarros importados, numa longa piteira, contemplava com olhos enevoados o lugarejo pobre onde a vida o levara. Apesar dos esforços, não conseguiu adotar o chimarrão, coisa que continuava a julgar uma "baboseira quente."
Com a aproximação do Natal, no entanto, seu Berilo se transformava. Alguma coisa parecia agir no seu íntimo e ele mudava, tratando as pessoas de maneira amável e até distribuindo sorrisos. Aliviados, os funcionários bendiziam aquela época do ano.
Mal entrado o mês de dezembro, seu Berilo pegava da mulher, dona Malvina, matrona avantajada e que, pela idade, poderia ser sua filha, e embarcava no direto da noite com destino ao Rio de Janeiro. Por lá permanecia alguns dias e retornava cheio de malas, pacotes e caixas de conteúdo secreto.
Descansado da viagem, ordenava o início dos preparativos para a festa. Nesses dias parecia outro, alegre, risonho, brincalhão, com as banhas da barriga tremelicando na sua incansável movimentação. Despachava o Joca Volante, dono do único fordeco da Vila, para o reduto de Anhanguera, em busca do mais perfeito pinheirinho nativo. Com ele seguia Nhô Marco, morador daqueles ermos, conhecedor da matéria, sempre com as bombachas ameaçando despencar.
- Quero uma árvore verdejante e sem defeito! - recomendava enfático. - Sem defeito!
Pela tardinha, o fordeco de rodas tortas e tolda retamada de remendos, encostava nos fundos da casa verde para descarregar a encomenda, tudo debaixo da vigilância do Administrador.
Hóhó, encarregado da usina, recebia ordens para estocar bastante "lixo", sobras de madeira serrada que alimentavam a caldeira. Na véspera do Natal a luz deveria varar a noite, sem apagar pelas dez horas, como de costume. Tossindo e espirrando, na gripe crônica adquirida no entra-e-sai da friagem de fora para a quentura da usina, tratava de empilhar boa quantidade de material enxuto. Por segurança, fazia uma revisão sumária da usina. Não fosse a caipora falhar justo naquela noite! "Hóhó, isso não! Isso não!" - prometia-se o usineiro.
Na casa verde, enquanto isso, a movimentação era grande. No pátio da frente foram montadas compridas mesas e bancos de tábuas brutas e tudo passou por uma completa limpeza. Mais adiante, num canto vazio, abriu-se o buraco do moquém. Dona Malvina e as crias da casa, num vai-e-vém incessante, preparavam as comidas e os pacotes de presentes, esforçando-se para não esquecer ninguém. Com a orientação direta de seu Berilo, armou-se o pinheirinho na área, no mais visível dos lugares. Tanto ele como a casa e até as árvores mais chegadas receberam lâmpadas multicores, pisca-piscas e enfeites numa quantidade nunca vista. Os assadores foram postos de sobreaviso e o fordeco do Joca Volante foi requisitado mais uma vez para conduzir a carne de uma fazenda próxima. Tudo nos trinques, seu Berilo mandou espalhar o convite, mal contendo a impaciência. A cada passo esquadrinhava o céu, temeroso de alguma chuva intempestiva. Mas o tempo parecia firma como convinha.
No dia da festa, pela noitinha, a usina entrou em ação a pleno vapor. Contente, apesar dos espirros e tosses, Hóhó verificou que tudo estava bem e mandou sua melhor luz a todos os cantos da Vila onde chegassem os fios. A casa verde, com suas lâmpadas coloridas, se destacava nítida no centro da Vila, desenhando sombras curiosas em redor. O pinheirinho, coberto de enfeites e luzes, salpicado de chumaços de algodão, rebrilhava no verdor das grimpas. No chão, ladeando a poltrona destinada ao Papai Noel, erguia-se o montão de presentes. Fazendo fundo, o "jingle bell", oriundo das estranjas, invadia os ares mais afeitos ao canto do bentevi, ao grito irado do quero-quero e ao pio agudo da perdiz.
Muito devagar, sem pressa, o povo se achegava, meio ressabiado com aquilo tudo. Nem o cheiro forte do churrasco que assava no moquém conseguia apressá-lo. Vinham o Anulino e a Parenka, casal de agregados; vinham o Krautchuk e o Malanski, turmeiros do trecho norte, entretidos numa prosa arrevesada; vinha dona Albertina, a professora, com seus óculos na ponta do nariz; vinham seu Baby, o agente, e o Germano telegrafista, desligados um pouco do morse e do seletivo; vinha o Quim Pitoco, guarda-chaves; vinham o Zeca do monjolo, o Alcides da gaita, o Rosendo caixeiro, o Clidão açougueiro, o Arigó com seu violão, o João Maria pintor com seu braço mais grosso que o outro, o Mané Fortuna da bodega, o Guai sapateiro, o cabo Nicácio, chefe do destacamento, acompanhado de seu Godinho, inspetor de quarteirão, e até o Catarino, viajante de Serra-Abaixo. Vinham operários e funcionários da Companhia, as moças em trajes domingueiros e a criançada vestida na estica e com os cabelos englostorados. Vinha até o Joca Volante, com seu inseparável fordeo, para alguma precisão; afinal nunca se sabe. E vinham também o Natão, o Mão de Onça e o Rasgadiabo, trio que vivia campeando quem inventou o serviço, sobre o qual seu Berilo mandou esticar o olho. Das ruas, dos carreiros, das quebradas e caminhos fundos, dos becos e cafundós onde houvesse um rancho, todos foram se achegando, alguns quase alçados. Brancos bem alvos, pretos da carapinha pixaca, polacos de cabelos cor-de-palha e caboclos enxutos de corpo, todos embicaram no rumo da casa verde. Recebidos no portão, espalhavam-se pelo pátio, espiando meio assustados, pisca-piscando os olhos desacostumados daquele farturão de claridade e de povo. Postado no janelão do sote, com visão geral, seu Berilo se babava de gozo.
Enquanto o povaréu se ajeitava, já vestido de Papai Noel, seu Berilo escapuliu pelos fundos. Ladeou o galpão e principiou a subida na direção da entrada da Vila. Estranhando suas roupas, um cachorro cheio de rabuja avançou contra ele mas levou um cotucão com a bengala e saiu ganiçando - cain! cain! cain! - até sumir no guamirim. "Por pouco aquele jaguara não me denunciava!" - excogitou seu Berilo.
Suando, bufando que nem matungo velho, chacoalhando as banhas, chegou afinal ao topo da colina. Ali Nhô Marco o esperava com a charrete, na qual se aboletou, assumindo a pose oficial de Papai Noel.
Quando espocou o primeiro foguete na canhada, começou a descida vagarosa. Divertia-se no caminho com a própria situação: em vez de trenó, viajava numa antiga aranha de altas rodas ferradas; em vez de rena, era puxado pelo Gatiado, cavalo velho caborteiro e bardoso como ele só; em lugar da brancura da neve, levantava a poeira vermelha da rua de chão batido.
Estacionou, por fim, diante da casa verde, provocando um murmúrio de admiração daquela gente. Meio atrapalhado com a bengala, o saco e as varas de marmelo, desceu e andou devagar até a poltrona colocada entre o pinheirinho e os pacotes. Suas roupas vermelhas faiscavam na claridade.
Dona Malvina fazia as honras da casa. Indagava da viagem, das crianças, das coisas do mundo. Acomodado na poltrona, ele iniciou a distribuição dos presentes, saboreando a alegria estampada nas faces e a avidez com que agarravam os pacotes. Trepadas nas árvores e nas grades da área, as crianças mais taludas acompanhavam seus mínimos gestos, enquanto as menores agarravam nas saias das mães. Esbugalhavam os olhos quando ele ameaçava com varadas as que não estudavam ou desobedeciam em casa.
O monte de pacotes foi minguando até desaparecer. Ninguém foi esquecido.
Encaminhado às mesas, o povo foi servido. Churrasco, saladas e farinha à vontade, tudo regado a muita gasosa de framboesa, que seu Berilo era inimigo de bebidas fortes. Algumas crianças beberam tanto que até soltavam bolhas de gás pelo nariz. E todos comeram e comeram. Já em trajes normais, seu Berilo andava por ali, falando com este ou aquele, provando um naco de carne, feliz como uma criança.
A noite avançava. Em grupos, as pessoas se retiravam satisfeitas. As crianças pequenas dormiam nos braços dos pais, as maiores carregavam com mil cuidados o presente, talvez o único recebido em toda a vida. Nunca aqueles carreiros tortuosos foram tão fáceis de trilhar.
A Vila recaiu no silêncio, só quebrado pelo canto de um galo ou o acôo de algum cachorro ainda arisco do foguetório.
Enfiado numa capa lageana, alternando tosses e espirros, Hóhó alimentava a caldeira e mandava a melhor luz a todos os cantos da Vila.
As ruas principais se cruzavam no pátio da estação, lembrando uma cruz iluminada em pleno campo. A casa verde se destacava na esquina.
No céu límpido e sem nuvem a lua brilhava e as estrelas piscavam Pareciam alegres com a transformação daquele homem.

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Suplemento Literário A ILHA - Edição Nº 115 - DEZEMBRO/2010 - Ano 30
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